O Campeonato de 1945

Segundo Cireno e Nilo Biazetto, as finais do campeonato de 1945 foram uma das melhores. Atlético e Coritiba se enfrentaram e ambos os clubes tinham bons times. O Coritiba tinha Miro, Fedatto, Lauro, Tonico.

Cireno comenta que era difícil jogar contra eles:

“O Tonico era um senhor jogador, eu sofri 10 anos por quem me marcava era o Tonico e o Fedatto estava sempre na sobra. Eu tinha que jogar muito, mas MUITO (enfatiza). Tinha que usar a cabeça, tinha que comer fósforo, tinha que fazer de tudo pra poder jogar, porque esses homens marcavam, eles sabiam jogar.”

O Atlético foi campeão do 1º turno e o Coritiba do 2º. Então, o campeonato era decidido na melhor de três. A primeira partida foi no dia 16 de dezembro de 1945 em jogo no Alto da Glória, tendo o Atlético perdido por 2×1. A segunda partida foi no dia 23 de dezembro de 1945, na Baixada, com vitória do Atlético por 5×4. E o terceiro jogo foi no dia 30 de dezembro no Alto da Glória e terminou empatado em 1×1. Na prorrogação o Atlético venceu por 1×0 e foi campeão.

Observação: Todas essas datas são citadas de cabeça por Cireno que se recorda de todas elas, sem pestanejar.

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A amizade de Cireno com Lilo

Clodoaldo Trindade, o Lilo começou no Atlético nos anos 30, ainda no infantil. Jogava na meia-esquerda e também de centro-avante e jogou junto com Cireno no profissional do Atlético. Segundo Cireno, ele era um baita jogador, fazia a bola correr, era inteligente, um assombro de jogador.

Lilo tinha Cireno como um companheiro. Ele gostava de driblar os adversário, mas na hora de fazer o gol, preferia passar a bola para Cireno marcasse os gols. Ele dizia que ficava mais feliz ao ver Cireno fazer os gols do que se ele mesmo fizesse.

Cireno fala da sua admiração por Lilo

“Vocês não imaginam o quanto eu estimava esse polaco. A estima começou assim, ele era um jogador sério e não dava muita bola pra gente. Ele precisava ganhar dinheiro, pois ele não tinha nem pai, nem mãe. Ele tinha somente um irmão que o apoiava bastante, era um capitão. Mas o Lilo não queria o apoio do irmão, então ele jogava futebol pra ganhar dinheiro e estudava Medicina. Estudava que nem um louco e sempre foi muito sério. Às vezes a gente ia treinar e encontrava o Lilo lá na Praça Rui Barbosa e dizia: ‘Vamos Polaco!’ Ele dizia que não podia e mostrava o avental embaixo do braço que ele tinha que ir pra Santa Casa.

Um dia, num jogo uns dois ou três jogadores e mais o goleiro me cercaram e joguei a bola pro Lilo e ele nem olhou e chutou pro gol e fez o gol. Aí ele me deu um abraço quase chorando. E eu disse: ‘Polaco, você joga bola, hein? E você é meu amigo.’

Esse Polaco jogava que vocês precisam ver. Às vezes ele driblava meio mundo, mas vinha dar a bola pra mim. E eu perguntava: ‘Mas porque você faz isso?’ E ele me dizia: ‘Porque eu fico muito mais alegre de ver você fazer o gol, a jogada bonita eu já fiz. Você fazendo o gol, eu fico alegre. Se eu fizer o gol, eu não fico alegre.’

Eu joguei com ele até 45, quando ele foi embora pro Ferroviário porque ele precisava de mais dinheiro. Como o Atlético não podia pagar, ele foi pro Ferroviário.”

Cireno, cobrador de faltas

Cireno conta que certa vez foi cobrar uma falta, mas errou a cobrança e a bola foi parar no segundo andar, lá no ginásio. Obstinado que era, depois daquele dia ele passou a treinar a cobrança de faltas, e em todos os treinos procurava bater uma três ou quatro faltas.

Batia da risca da área, dois ou três metros pra fora da área. Quando a falta era do lado direito do campo, Cireno jogava o corpo para a esquerda chutava com o pé direito, mas no canto esquerdo. Quando a falta era do lado esquerdo, ele jogava o corpo para a direita e chutava com o pé esquerdo no canto direito. Desta maneira ele enganava o goleiro e procurava sempre acertar no ângulo.

Assim, Cireno ficou especialista em cobranças de faltas. Ele sabia como bater para que a bola entrasse. Cireno afirma que bateu 9 faltas na sua vida esportiva, errou a primeira, mas as outras 8 foram convertidas em gol.

Ele nos contou como foi a primeira falta que cobrou após ter errado aquela cobrança.

“O primeiro, eu errei e chutei lá no ginásio e não bati mais. Até que veio um jogo contra o Caxias. O Atlético perdia por 2×0 e o Caixas fez uma falta na meia-direita, fora da área e eu disse que ia tentar. Pensei, todo mundo chuta fora, se eu errar também não vai acontecer nada. Pus a bola ali e o goleiro fez a barreira ali, bem do jeito que eu queria. Pensei, chuto por fora da barreira lá no cantinho, eu faço. E o goleiro ficou lá, porque eu era ponta-esquerda, ele pensou que eu fosse chutar lá no cantinho. Ele fechou aqui e ficou lá. Eu fiquei de frente pra bola, mas não mostrando como eu ia bater.”

Cireno abre um parênteses falando de como são as cobranças de falta e de escanteio nos dias de hoje:

(“Porque hoje vão três jogadores, um vai bater com o pé direito, outro com o pé do centro e outro com o pé esquerdo, ficam três cercando a bola. Ao invés de colocar mais um dentro da área que se a bola sobrar é gol. Quanto mais gente tiver dentro da área, maior é a chance de fazer o gol. É quem nem corner quando têm 4 ou 5 cabeceadores, corner é um perigo, 50% é gol. Porque tanto faz, a oportunidade surge pra qualquer um.”)

Então ele volta a falar da falta que cobrou contra o Caxias:

“Então eu fiquei ali e ele ficou lá, fiquei sozinho ali e chutei direto na bola, o goleiro não estava esperando, ele pensou que porque eu era ponta-esquerda que eu ia bater de pé esquerdo. Quando o juiz apitou, eu saí pro lado esquerdo e bati com o pé direito e a bola entrou, o goleiro quase chegou na bola, mas ela entrou. Nessa hora, pensei: Eita, eu sou batedor de falta.

Deu mais uns 15 minutos, mais uma falta, só que do outro lado, na mesma posição da trave. Não tive dúvidas, peguei a bola e pus ali, eu já tinha feito um e ninguém reclamou. O juiz apitou, dei o passo com o pé direito e chutei com a esquerda, no ângulo. O alemão (goleiro) nem foi na bola, 2 gols, empatamos. Eu já fiquei bem feliz. Já no finalzinho do jogo, todo mundo acomodado com o 2×2. De repente, um bate-não bate, bate-não bate, uma bola bateu aqui, pensei, o que é que eu faço, pulei lá em cima, bati com o pé esquerdo no ângulo, fiz um GOLAÇO (enfatiza). E ganhamos o jogo por 3×2.

Foi assim que eu me tornei batedor de faltas.”

O início da carreira de Cireno

A infância de Cireno

“Eu era um guri, lá da cidade de Rio Uruguai (perto de Ponta Grossa), com dez anos fui morar em Marechal Mallet e lá eu jogava bola com a piazada. Tinha quatro times lá: o do Colégio dos padres, o dos Polacos, o do pessoal da Estação e outro lá. A gente jogava uma bolinha de meia e um senhor lá de Mallet, seo Francisco Auritio, nos viu brincando perto da linha da estrada de ferro da Estação. Ele perguntou pra um pessoal lá quem era aquela gurizada. Disseram pra ele que era a piazada da cidade. E ele resolveu dar uma bola de couro pra nós.

Nós estávamos em cinco guris, a gente tinha voltado do rio, nós tínhamos treinado e fomos tomar banho no rio. A piazada era batuta, tinha filho de turneiro e guarda-chaves (que trabalhavam na Estação Ferroviária) e mais uns guris do hotel que iam pegar mala na Estação.

Então, um dia ele apareceu com uma bolinha de couro nº 3, daquelas com costura ainda. Ele levou a bola vazia, até que eu consegui um cabo de bicicleta daqueles que tinha um biquinho pra encher a bola. Vocês tinham que ver a festa que a gurizada fez.”

Cireno jogador do Guarani de Ponta Grossa

“Com 14 anos eu fui morar em Ponta Grossa. Um dia eu estava jogando lá num campo aberto, onde eu vivia jogando e passou um rapazinho, meu colega, ele me disse: ‘Por que você não vai treinar no Guarani?’ Eu disse: ‘Mas eles não deixam.’ Ele disse: ‘Se você for comigo, eu sou do juvenil, eles deixam, vamos lá.’ Eu disse: ‘Então vamos.’

Eu fui lá, treinei, gostaram. E assim eu fui treinando no Guarani, deu uns 10 – 15 dias eu já era ‘dono’ do Guarani, eu já era o capitão do time e o guarda-bolas do juvenil. O seu Pilato era o center-half do time, um baita de um senhor, ele puxava madeira com um caminhão, forte, e jogava bola que vocês precisavam ver. Guardava a bola ali no meio mais do que vinte cachorros, ninguém passava por ele. Ele disse que ia me nomear o guarda-bola do 1º time. Disse que eu teria que engraxar a bola, passar um sebinho. Eu perguntei: ‘Mas onde é que eu arrumo o sebo?’ Ele disse: ‘Isso aí você tem que se virar.’ Mas depois ele disse: ‘Você vai lá no açougue tal que eles te arrumam.’

Eu ia lá e ficava olhando o primeiro time do Guarani treinar. E era longe da minha casa, dava uns 3km. De repente faltava um lá, e ele gritava: ‘CIRENO!’ Depois mais tarde me puseram um apelido lá, mas eu não vou dizer o apelido. Ele dizia: ‘Ô, Fulano! Cireno, o ponta-direita não veio.’ E me colocavam pra jogar. E assim ia, faltava um meia-direita, eu jogava. Centro-avante, meia-esquerda, e eu ia entrando no time em todas essas posições. E estava treinando já fazia um bom tempo, eu treinava mais na ponta-esquerda do segundo time. Eu treinava e jogava com o juvenil, mas treinava com o profissional também. Treinava a semana inteira.”

E foi assim que Cireno tornou-se jogador de futebol. Logo em seguida ele veio para o Atlético.

Curiosidades sobre Motorzinho

Os vales de Motorzinho

O time do Furacão 49 foi desfeito no ano seguinte, com a saída dos principais jogadores. E Motorzinho também acabou saindo. Mesmo assim, por diversas vezes, ele voltava ao Atlético, quando o clube precisava.

Nessas idas e vindas, uma situação ficou bem conhecida, os famosos vales do Motorzinho. O presidente do Atlético era o dr. Carlos Zehnpfennig (1960 e 1961) e o clube estava numa situação financeira complicada, pra se ter ideia, os jogadores recebiam do pai do dr. Carlos Zehnpfennig.

Quando a esposa de Motorzinho faleceu (depois dele), sua família teve acesso a diversos documentos guardados por ela, inclusive os vales de jogadores do Atlético.

O carteado do Motorzinho

Cireno nos conta um detalhe interessante da história de Motorzinho. O dinheiro que ele dava pro Atlético proveniente do carteado que ele explorava na sede do Atlético.

Confiram a história contada por Cireno:

“Vocês tem que conhecer um outro aspecto do Motorzinho que é um assombro. Mas o Motorzinho teve época que explorava o jogo de carteado na sede do clube, na XV. Naquele tempo, sede de clube podia ter jogo de carteado. O pessoal ia lá na salinha fechada jogar e o Motorzinho servia café e lanche. O Motorzinho que era o manda-chuva, o dono da casa, e grande parte da porcentagem da renda ele dava tudo pro Atlético. O aluguel lá era mixaria, o aluguel ele pagava, mas o que ele dava pro Atlético era bastante. Isso no tempo do Furacão.”

Boluca jogador do Atlético

Toda vez que o Atlético estava em apuros, Motorzinho era chamado. Numa dessas, aconteceu um Atletiba no Alto da Glória e o Atlético não tinha 11 jogadores pra colocar em campo. Grande parte dos jogadores estava machucado e devido às dificuldades financeiras também não tinha elenco.

Como não poderia jogar com 10, Motorzinho chamou Boluca (que hoje é colunista da Tribuna) para compor a equipe.

Seu filho Carlos Antunes conta como isso aconteceu:

“O Boluca pôs uma coxeira e entrou puxando a perna para que o Atlético pudesse entrar em campo. Resultado do jogo, 1×0 para o Atlético, gol do Boluca. O campo do Coritiba lotado e o Atlético vence com gol do Boluca.”

Nessa hora Cireno fala:“Esse foi o erro do seu pai.” Arrancando risos de todos os presentes.

Motorzinho revelou o Sicupira

Foi o técnivo Motorzinho que pela primeira vez colocou Sicupira num jogo profissional, ainda no Ferroviário.

Como contou seu filho Carlos Antunes:

“O pai foi treinador do Ferroviário, na época do Hipólito Arzua, que era muito amigo dele. E no juvenil do Ferroviário estava o Barcímio Sicupira. Teve uma decisão Ferroviário e Água Verde, no Durival de Brito, e o pai chamou o velho Barcímio e disse: ‘Olha eu vou colocar o teu piá pra jogar’. Isso era numa decisão. O pai do Sicupira não queria, achava que queimaria o Sicupira por ele ser muito novo. Mas, o pai (Motorzinho) não quis saber e chamou o Sicupira na beira do gramado e disse: ‘Olha, você vai entrar!’ O Sicupira não recuou. Resultado, o Ferroviário ganhou de 1×0, com de puxada da meia lua, gol dele.

As pessoas que fizeram o Furacão

Nilo Biazetto, zagueiro e capitão do Furacão fala sobre os grandes exemplos que recebeu do técnico Motorzinho e dos diretores que comandavam o Atlético em 1949.

Ele fala também da importância que esses exemplos tiveram para que o Atlético seja o clube que é hoje. E da importância que se tem de continuar essa história para que o Atlético seja cada vez maior.

Motorzinho

“O Motorzinho foi o técnico do Atlético, quando o Atlético foi campeão em 49. Motorzinho era um grande jogador, jogava no Internacional. E ele jogou aqui em Curitiba, com o Internacional contra o Atlético e contra o Coritiba. Quando ele foi a Porto Alegre ele ficou lá mais um período, e ele voltou ao Paraná como técnico do Atlético. E foi um técnico que todos nós respeitamos. Motorzinho era um homem íntegro, correto, direito, como eram todos os que tinham contato conosco.

Tudo que o Cireno disse sobre o Motorzinho enaltece o Atlético. E o Atlético é grande hoje e tem um belíssimo estádio porque a família inteira do Atlético se comungou e se uniu. Graças ao seu passado que, é que o Atlético tem hoje o presente que tem e terá um futuro muito melhor. Então para aqueles que são atleticanos e que estão aqui, é a mensagem que eu deixo para vocês.

Relembrar o Atlético Paranaense daquela época é rememorar o passado. Rememorar o passado tendo em vista, a geração que está aqui hoje será copiada pelos homens que virão amanhã. Essa é a nossa grande responsabilidade.”

Os dirigentes do Atlético de 1949

“O Atlético foi campeão de 49, com um time extraordinário, além de bons jogadores, bons homens e bons companheiros. A grande coisa do Atlético do nosso período, não que hoje não seja bom, é que todos nós, ou nós trabalhávamos bem ou nós estudávamos bem. O Atlético tinha assim. Tinha Jofre Cabral e Silva e o pai dele, João Alfredo Silva, que era diretor da Escola de Comércio Plácido e Silva, onde eu estudei.

A gente sentia nos dirigentes do Atlético daquela época, a vontade de que todos nós jogássemos no Atlético, trabalhássemos, mas estudássemos. Esse cuidado que eles mostravam quando lidavam com jovens, como nós, de vinte e poucos anos, eles diziam pra nós todos: Se vocês não estudarem, vocês serão como esses caras que vocês vêem por aí. Se vocês estudarem vocês serão gente como nós, todos advogados. Esses diretores: Otávio Andrade Coelho, Erasto Miró, Joaquim de Azevedo eram homens que eram figura importantes, mas que davam o seu exemplo para nós que jogávamos futebol.

Eu tive a oportunidade de fazer uma bela carreira no Banco do Estado do Paraná, eu fui diretor do banco por 12 anos, graças ao Jofre e ao Atlético Paranaense, mas eu tinha estudado, eu tinha me preparado. Depois fui diretor-presidente da Paraná Financeiro, presidente da Banestado Corretora. Esse era o desejo dos diretores do Atlético Paranaense com os seus jogadores. Outro caso assim era o Lilo, que era um médico brilhante, extraordinário. Foi diretor da Saúde Pública, foi diretor de um hospital em Cascavel e foi médico do DNER.”

O futuro do Atlético

“Essa é a história, e nós não a escondemos porque eles semearam em terreno fértil. Eu fui e sou até hoje conselheiro do Atlético Paranaense. E procuro manter essa tradição de Atlético, é isso que nós queremos. Quando se faz uma reunião dessas é pra se mostrar o que é o Atlético, mostrar o que é a família atleticana. Meu filho e meus netos são atleticanos, porque eu dou um bom exemplo de atleticano.

Então nós temos a grande responsabilidade de fazer com que essas famílias, como os Siqueira que está aqui representado (pelo Sérgio S. Siqueira), voltem a militar dentro do Atlético Paranaense. Porque nós sempre fomos a elite do esporte no Paraná e perdemos esse título porque houve diretores que não tinham o espírito dos Siqueira, ou dos Mäeder. Eu cito de boca cheia porque eu militei com eles.

Depois que eu parei de jogar futebol eu fui diretor do banco e eles eram meus clientes e eles tinham me colocado lá. E eu digo isso com muito orgulho, porque não foi uma colocação de favor, foi uma colocação de encaminhar um homem que quer crescer. Como todos vocês que estão aqui que tem filho, querem crescer, que querem uma oportunidade. Me deram uma oportunidade e eu a agarrei. E graças a Deus eu estou muito bem de vida.”