Participação no Concurso Blogbooks

Olá, atleticanos,

Como é de conhecimento de todos, o blog do Círculo de História Atleticana participou do 2º Prêmio Blogbooks. Graças à votação expressiva da torcida atleticana o blog foi classificado entre os 10 finalistas.

A segunda fase foi de escolha dos editores da Ediouro que elegeram um blog de cada categoria. O resultado final foi divulgado ontem e infelizmente, a escolha deles não foi pelo Círculo de História Atleticana.

De maneira alguma isso fará com que eu desista de escrever livros sobre a história do Atlético, minha grande paixão. Livros no plural pois tenho projeto para mais de um livro sobre a história do nosso Atlético Paranaense.

O projeto do Círculo de História Atleticana que originou este blog teve início com as pesquisas que tenho realizado há alguns anos para um dos livros que pretendo publicar. Quanto mais eu lia e pesquisava, mais me interessava pela história do Clube, pelos seus personagens e pelas curiosidades que os cercam. Foi essa a minha motivação para criar os encontros do Círculo de História Atleticana.

Hoje, após 2 anos e 15 encontros realizados, minha motivação em transmitir esse conhecimento a muitas pessoas só aumenta. Agradeço de coração todos aqueles acreditaram neste meu projeto desde o início, participando dos encontros, sugerindo temas, e também cobrando a realização de novos encontros. Vocês são a motivação para que esse trabalho, que é de uma grande importância para a preservação da memória do clube, continue.

Agradeço também todos aqueles que participaram desse concurso junto comigo, votando, divulgando, torcendo! Graças a vocês o blog ficou entre os dez melhores colocados.

Agradeço especialmente ao prof. Heriberto pela confiança e incentivo que sempre depositou em mim, desde o dia que fui pedir sua “bênção” para escrever um livro sobre o Atlético. Sem a parceria e presença dele os encontros do Círculo de História Atleticana não teriam tanto sucesso.

Saudações rubro-negras!

Milene Szaikowski (Mylla)

Alfredo conta sobre como era marcar Pelé

Perguntado sobre qual jogador foi o mais díficil de marcar em toda sua carreira, Alfredo Gottardi Jr lembra de Pelé.

“O Pelé era impressionante. Ele não deixava você encostar nele (fazer falta). E eu sempre deixei o atacante dominar a bola, porque eu tinha a certeza que eu roubava a bola. Mas o Pelé tinha um dom, ele dominava a bola e se ele sabia que tinha dificuldade pra driblar o cara, ele não driblava, ele tocava a bola.

Então eu sempre me dei bem marcando o Pelé por causa disso. Porque eu deixava ele dominar a bola e não dava cacete nele. Ele sabia que podia jogar bola. Então ele não me enfrentava, ele pegava a bola, chegava do meu lado tocava, e já saía ali na frente pra receber.”

A falta que fez em Pelé

Uma vez eu dei uma chegada nele, mas foi sem querer. Ele ficou tão bravo e me disse: ‘Você nunca chegou em mim!’ Eu falei: ‘Tropecei, desculpa, tropecei.’

Habilidade de Pelé

“Pelé era demais, ele tinha tanta habilidade. O Edu pegava a bola na ponta esquerda e jogava aquelas bolas a meia altura. Ele (Pelé) ficava te cuidando pra saber se você dava o bote nele.

Ele fazia assim, a bola parava no pé dele, morria a bola ali, não saía isso (indica com a mão) do pé dele. Eu pensava, se ele dominar mal, eu chego. Mas não dava, não tinha jeito, ele não errava, não dominava mal nunca.”

O drible que Julio tomou

“Em 1970, a gente ganhou de 1×0 do Santos, à noite no Belford Duarte. Teve um escanteio na ponta direita. E o Edu correu pela ponta-direita e o Pelé correu pra receber a bola, e o Edu tocou ela na linha e o Pelé correu, e o Julio enfrentou ele, o Pelé fez que ia sair e ia pro meio, e o Julio foi pro meio. O Pelé não mexeu na bola, ele deixou a bola correr na linha e chutou, a bola bateu no peito do Vanderlei e foi pro meio de campo.

Aí eu comecei a rir, e o Julio era muito nervoso, disse: ‘Do que você está rindo?’ E eu disse: ‘Estou rindo do drible que o cara te deu, ele nem tocou na bola e você saiu pro meio de campo.’ O Julio dizia: ‘Você vai ver! Você vai ver!’”

Alfredo fala sobre os bicampeões mundiais com quem jogou

Em 1968 o presidente Jofre Cabral e Silva fez uma revolução no Atlético. Na época ele troxe quatro bicampeões mundiais pela Seleção Brasileira: Belini, Djalma Santos, Dorval e Zequinha.

Alfredo fala especialmente sobre dois deles: Belini, com quem aprendeu muito e Djalma Santos.

“Eles estavam parando, mas ainda jogavam muito bem. Tanto que o Djalma foi campeão em 70 com 41 anos. Você precisava ver a simplicidade deles, eles brincavam, como se estivessem aqui há 40 anos, numa simplicidade.”

Belini

“O Belini era uma figura carismática. Ele era grosso de tudo, era zagueirão daqueles que quebrava a bola. Nós fazíamos a rodinha, brincando e chamávamos ele. Ele dizia que não ia, ele não conseguia dominar a bola, mas ele tinha uma vontade de jogar bola, uma saúde, era impressionante. Ele veio pra cá com 37 pra 38 anos.”

Perguntei o que ele aprendeu com Belini, já que ele havia dito anteriormente que se espelhavam nesses grandes jogadores.

Ele responde:

“Liderança, Belini era líder nato. Ele conversava com você em campo e te orientava, ele te colocava no lugar pra jogar, a coisa ficava tão fácil quando ele falava.

Além de tudo tinha que ter humildade pra você saber que aquele cara ali atrás pior que você (tecnicamente), mas em compensação ele era Bicampeão do Mundo pela Seleção Brasileira. O cara tinha um valor muito grande.”

Djalma Santos

“O Djalma era impagável, ele deixava todo mundo louco na concentração, porque era uma sacanagem atrás da outra, era brincadeira o tempo todo. Nós íamos pra concentração lá em Colombo, nós parávamos na rua José de Alencar, lá tinha um barzinho, e na frente tinha uma revistaria. A gente passava lá comprava palavras cruzadas e um livrinho policial, era um livrinho de bolso, tinha umas quarenta e poucas páginas, você lia numa noite. Ele lia e arrancava as três últimas páginas. Aí você pegava pra ler quando chegava no melhor da história, cadê? Mas ele guardava e depois te entregava.”

Ao contar essa história, Alfredo ri muito, parece que ao relembrar é como se ele estivesse vivendo o fato novamente.

O último jogo de Djalma Santos

Perguntei a ele sobre o último jogo de Djalma Santos pelo Atlético, quando ele se aposentou. Que Djalma driblou o cara do Grêmio diversas vezes, fazendo tudo e mais um pouco.

“Nossa, o cara pediu pra sair. O Djalma era um jogador que você não dava nada pra ele. Porque ele era um cara tranquilo, ele parecia que não era rápido, mas ele era de uma habilidade. O cara vinha marcar ele lá na lateral, ele dava uma puxadinha com o pé esquerdo e batia com o pé direito e botava no pé de quem ele quisesse. Essa era a jogada dele. O cara pensava que tinha deixado ele sem condição e ele fazia dessas.”

O jogo em Guarapuava

“Uma vez nós fomos jogar em Guarapuava, pelo Paranaense. E o Djalma tinha uma coluna na Gazeta do Povo, onde ele escrevia. E ele falou não sei o que na coluna, que o pessoal de Guarapuava ficou louco.

O jogo era no domingo, quando nós chegamos lá no sábado, tinha faixa pela cidade inteira: ‘Cada macaco no seu galho’. E todos nós preocupados com o Djalma porque a torcida estava revoltada. Quando entramos em campo, o estádio lotado, acho que a cidade inteira foi ao jogo naquele dia pra desacatar o Djalma.

No Guarapuava jogava o Gino, ponta-esquerda, ele era um negão, rápido. O que esse Djalma fez com esse negão. Ele botava a bola no meio das pernas, dava chapeuzinho, driblava.

E aí, uma hora eles dividiram uma bola, o alambrado era perto, e um torcedor quis dar com o guarda-chuva no Djalma, mas deixou cair no chão. O Djalma pegou o guarda-chuva, juntou e devolveu pro cara. Se eu sou eu quebrava aquele guarda-chuva inteiro.

E depois no segundo-tempo, outro entrevero, dividiram a bola. E outro torcedor grita: ‘Ô nego fdp!’ E o Djalma abraça o Gino e diz pro torcedor: ‘Eu ou ele?’

E antes de começar o jogo todos nós preocupados, pensando, o negão (Djalma) vai tremer tudo. Que nada, ele não estava nem aí.”

Alfredo fala de seu pai, Caju

Estilo de jogo

“Não vi meu pai jogar, quando eu comecei a ter noção de futebol ele já tinha parado de jogar. Mas pelo que amigos falam do pai, ele era um fenômeno. Diziam que o pai tinha uma facilidade pra pegar pênalti, porque ele era muito rápido.”

Outros esportes

“Ele era baixo, tinha 1,72. E ele era campeão de salto com vara, com aquela estatura . O pai lutava boxe, quando vinham os circos pra Curitiba, o pai era sparring dos caras que lutavam boxe.”

Personalidade de Caju

“Meu pai era uma figura, era espirituoso. Nós tínhamos uma casa na praia, naquela época não tinha sandália havaiana, era um tamanco de couro com salto de madeira. Ele e meu tio acordavam às 5h da manhã pra ir pescar, o pai colocava aquele tamanco e saía batendo pela casa inteira pra acordar todo mundo. Acordavam todo mundo e iam embora.”

Outras qualidades

“Ele desenhava muito bem. Ele pegava folha de palmeira, desenhava olho, nariz, boca e depois pintava uma cara indígena, vocês precisavam ver que coisa mais linda. Ele fazia essa máscaras, ele punha, nós moleques brincando em Guaratuba. Ele colocava um lençol branco e saía no meio da madrugada, e eu junto. Meu pai era uma figura.”

Caju na Seleção Brasileira em 1942

“Eu tenho em casa recortes do Campeonato Sulamericano que o pai jogou pela Seleção Brasileira. Eles foram considerados a melhor defesa do campeonato, era o pai, Domingos da Guia e Oswaldo.”

Convite para jogar em outros clubes

“Esse álbum tinha uns dez telegramas pro pai:  ‘Estamos aguardando sua chegada’. Era Flamengo, Vasco, todos queriam o pai. Mas ele nunca quis sair do Atlético, ele era muito apaixonado pela minha mãe.”

Segundo Alfredo, seu pai falava pouco sobre seu tempo como jogador. Mas uma das coisas que ele contava, era sobre a recusa das propostas para jogar em outros times. Ele prossegue:

“O pai me dizia:

‘Eu trabalhava, era diretor da Secretaria de Saúde Pública de Curitiba. Vou arriscar jogar de profissional lá e se me machuco, como vai ficar minha vida?’ Teria que levar a família toda, ele já tinha meu irmão mais velho, eu e minha irmã era pequenininha. Ele dizia: ‘Eu vou com três filhos pra lá? Sem saber o que vai acontecer? Podia ser que chegasse lá, estourasse e ganhasse um monte de dinheiro. Mas podia acontecer alguma zebra.’

Então, ele nunca quis sair do Atlético.”

Alfredo fala do tio Alberto Gottardi

Alfredo fala sobre seu tio, o goleiro Alberto Gottardi, que precedeu seu pai Alfredo no gol do Atlético.

“O tio Alberto era auto-didata, desenhava, pintava. Aquela índia que tem no açúcar Diana foi ele quem desenhou. O Alberto Romani disse que precisava de um desenho pra representar o açúcar. O tio disse que fazia, fez o desenho e deu pra ele. O Ailton Fantinato (diretor do açúcar Diana e depois diretor no Atlético) queria saber qual era o preço. Ele disse que não custava nada, que fez porque eles pediram.

Ele mal fez o primeiro grau, mas ele era de uma capacidade, ele lia livros. A história da Segunda Guerra ele sabia toda. Ele sabia quais eram todos os navios alemães, ingleses, americanos, o nome de cada um, os armamentos que tinham, qual era os calibres dos canhões. Ele sabia tudo, ele era impressionante.”

Alberto passou a chave do gol para Caju

O pai começou a jogar com 15 anos, quando ele fez 16 anos, o tio falou assim: ‘A partir de hoje o titular do Atlético é o meu irmão e eu parei de jogar’. E não jogou mais (1933). Ele passou a ‘chave’ do gol pro pai que jogou até 1949 e parou.”

Cahuê Miranda, um dos participantes do 15º encontro do Círculo de História Atleticana disse que seu avô era fã de Alberto Gottardi. E que segundo ele, Alberto era melhor que Caju.

Professor Heriberto, que conheceu vários dos jogadores da época de Alberto Gottardi complementa:

“Os velhos da década de 30 (Zinder, Levoratto, Raul e Naná) diziam: ‘O Alberto era melhor que o Caju, vejam que goleiraço que a gente tinha’.”

Jogador de tênis

Alfredo prossegue falando do tio:

“Tio Alberto foi Campeão Paranaense de Tênis. Ele fez uma quadra de tênis no fundo da Baixada. Nós éramos moleques e só jogávamos tênis, nem queríamos saber de futebol. Sábado e domingo era tênis direto.”

O cuidado com o gramado da Baixada

Uma das coisas que todos comentam sobre Alberto Gottardi é sobre o cuidado que ele tinha com o gramado da Baixada. Depois que parou de jogar, Alberto passou a ser o administrador do estádio e cuidava do gramado de tal maneira a ponto de não deixar o time treinar se tivesse chovido.

Alfredo fala sobre esse cuidado que seu tio tinha com o gramado:

“Era assim, ele chegava lá, a federação escalava o jogo. Por exemplo, Bloco Morgenau e Palestra. Chovia, ele fechava os cadeados e não tinha jogo. Fechava os cadeados e ia embora.”

Alfredo fala sobre sua família

Perguntei a Alfredo se seu amor pelo Atlético veio do pai. Ele disse que era de toda família, tanto os Gottardi quanto os Cecatto, pai e tios, todos muito atleticanos.

Ele conta:

“A família inteira, até hoje, são todos doentes pelo Atlético. Não tem nenhum coxa, são todos atleticanos. Meu filho é doente, mais doente que eu, ele não perde um jogo. Ele sofre, eu já não sofro, não sei se é porque fui jogador e sei como as coisas são. Eu fico nervoso, se o jogo estiver passando na tv eu vejo, mas não escuto.”

Morar perto da Baixada

“Nós sempre moramos perto da Baixada. Tinha a rua Cel. Dulcídio, onde morava o avô e tanto os Gottardi, quanto os Cecatto moravam por ali. O pai tinha 12 irmãos, todos ali em volta do estádio.

Quando a gente era moleque, não íamos pro jogo. O vô ia pro jogo e o pai e o tio Alberto ficavam jogando baralho na casa da vó. Reunia uns 10, 12 jogando baralho. Dava cada encrenca, era muito divertido, a família sempre foi muito unida.”

Churrasco e o Atletiba

“Teve um Atletiba recente, já na Arena, e nós estavamos todos na casa da minha mãe, ali perto da Baixada.  Meu irmão é uma figura, e ele estava na rua, em frente a casa da mãe. Passou um grupo de coxas indo pro jogo e provocaram ele. Mas que azar os caras deram, na hora saíram uns 15 de dentro da casa.”

Profissionalismo de Alfredo Gottardi Jr

Alfredo conta que se profissionalizou muito rápido, com 17 anos já era profissional. Naquela época os jogadores se profissionalizavam mais tarde, com 21 ou 22 anos. Tinha categorias de juvenis, aspirantes e só depois virava profissional.

Segundo Alfredo, eram poucos times, então havia uma seleção muito mais apurada pra que o cara virasse jogador. Ele diz que havia muitos jogadores bons, então tinha que ter persistência pra conseguir se tornar jogador.

Sobre sua carreira ele fala:

“Eu botei na minha cabeça que eu ia jogar até os 32 anos. Então decidi que seria um atleta profissional. Minha mãe dizia pra mim: ‘Alfredo você nunca dorme depois das 22h?’ E eu: “Não mãe, porque amanhã eu tenho treino.” E ela: “Mas o pessoal vai beber uma cervejinha, você não vai?” Eu dizia: “Eu não bebo, mãe. Só bebo guaraná, coca-cola’.

Eu não fumava, não bebia, não tinha noite, não tinha nada. Dizia que depois dos 32 anos eu ia viver a minha vida. E foi o que eu fiz, com 33 eu me separei e aí caí na noite. Arrumei um grupo de amigos e todo dia tinha festa.

Eu até podia jogar mais 3 ou 4 anos, mas não quis.”

Influência do pai

Perguntei a Alfredo se todo esse profissionalismo que ele tinha era influência de seu pai.

Vejam o que ele respondeu:

“Muito! Mas ele não falava nada, era só o exemplo dele. Ele dava toda liberdade para eu fazer o que eu queria. Nunca chegou pra mim e disse que eu havia jogado mal uma partida.

Tinha partidas que eu jogava mal, entregava o ouro lá. Mas eu dizia pros outros jogadores, nem adianta reclamar que eu tenho muito crédito.”