Presenças do 16º encontro do Círculo de História Atleticana

Data: 05/11/2010
Horário: das 19 às 22 horas
Local: A Varanda Bar e Restaurante

Tema:
Roberto Costa – O mão de anjo

Organização:
Milene Szaikowski

Convidados:
Roberto Costa
(Goleiro do Atlético entre 1978 a 1983 e 1987)

Prof. Heriberto Ivan Machado
(Historiador do Clube Atlético Paranaense)

Alfredo Gottardi Jr
(Filho do goleiro Caju e jogador do Atlético de 1966 a 1977 e 1979)

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Demais participantes:

Andréa Broto da Silva
Augusto Frederico Michells Ribeiro
Daniel Loures Martins
Danilo Caron
Ednei B. Nascimento
Fernanda Loures Martins
Fernando Augusto Mandu Kwiaski
Guilherme Braga Werner
Henrique Cardoso dos Santos
Luiz Demétrio Mandu Kwiaski
Patricia Bahr
Patrick Marcel Silveira
Paulo Roberto Perussolo
Nelson Rosário de Souza
Rafael Simioni Bunn
Rafaella Bettes
Rodrigo Salgado Agostinho
Roney Cesar de Oliveira
Rossana Macedo
Victor Hugo Ferreira

Alfredo Gottardi fala do material esportivo na década de 70

A tecnologia ainda não havia chegado aos materiais esportivos. As camisas e chuteiras eram pesadas, principalmente quando chovia, pois o material absorvia água.

Alfredo recorda como era esse material:

“A camisa era de algodão e quando chovia ela pesava uns 3 kg. O meião também era de algodão e não tinha elástico, você tinha que usar liga (aquelas de mulher) pra segurar a meia, se você não pusesse, quando chovia a meia descia e abraçava a chuteira e tinha que estar toda hora puxando.

O material de hoje não perde o calor e não segura água, então ele mantém a temperatura do corpo.”

Alfredo conta que ele e mais alguns jogadores iam a Argentina comprar material esportivo de melhor qualidade.

“A cada seis meses nós fazíamos isso, jogávamos no domingo, terminava o jogo íamos pra casa, tomava um banho, dormia um pouco e acordava às 3h da manhã, passava na casa do Buião e íamos de carro pra Argentina pra comprar material esportivo, principalmente chuteira e meia.

Na Argertina já tinha meia rubro-negra de banlon que era um material que não absorvia água. Se olharem fotografias da minha época podem ver que a minha meia era diferente da dos outros. Minha chuteira também era diferente, porque a chuteira que o clube dava era uma desgraça de ruim. Quem queria jogar com um bom material tinha que comprar, porque o Clube não dava, não tinha como. E na Argentina tinha a fábrica da Adidas, por isso íamos pra lá.

No Brasil tinha uma chuteira Gaeta, que era razoável, com as traves pregadas, aquelas rodelinhas de couro, e a chuteira Stadium, que foi a primeira chuteira nacional com tarracha. Você só podia jogar em campo bom e no campo molhado. Então você podia jogar com aquela chuteira em Maringá, porque o gramado era bom e em Bandeirantes, que era um campo fofo e só, o resto era tudo areião. Paranavaí era uma areia e o campo tudo assim e você corria, se você tivesse que fazer uma volta de giro, você perdia o pé, perdia o equilíbrio. Os gramados eram muito ruins.

A qualidade da bola, da chuteira de hoje nem se compara. A evolução do material é impressionante. A chuteira de hoje não pesa 100g, a nossa pesava 350 g. Você imagina o peso que tínhamos que carregar. A bola de couro natural, quando chovia ela pesava uns 2 kg e você tinha que cabecear, não tinha jeito, como que você ia tirar a cabeça? Tinha uns ‘migué’ que tiravam.”

 

Alfredo Gottardi fala do início do profissionalismo no futebol

A década de 70 foi o início do profissionalismo, foi quando os jogadores começaram a ganhar melhor e passaram a se dedicar somente ao futebol, pararam de trabalhar em outra atividade. Alfredo conta que ele tinha emprego em cargo público, paralelo a sua atividade como jogador de futebol.

“Eu trabalhei minha vida inteira, sempre trabalhei. Era assim, o diretor do Atlético conseguia pra você um cargo em um órgão público e você tinha regalias de poder sair pra treinar, aí você repunha a hora em outra oportunidade. Mas você estava sempre empregado. Como tinha o meu emprego, o salário do Atlético pra mim não fazia tanta diferença, ficava 6 a 8 meses sem receber no Clube mas não ligava porque tinha o meu salário do órgão estadual.”

A preparação física na década de 70

Alfredo conta que a década de 70 foi a época em que o futebol passou a ser mais profissional, os clubes já investiam em uma preparação física forte.

“Nós concentrávamos em Colombo, numa propriedade do Atlético, era uma casa enorme de madeira, tinha uns 8 quartos, salão de festa, salão de televisão, salão de jogos. Nós saímos aqui da Baixada, depois do treino de sexta-feira e íamos de roupa de treino. Quando chegávamos no Santa Cândida nós descíamos do ônibus e íamos correndo até a concentração que ficava a 500 m da cidade de Colombo e não tinha asfalto, era estrada de chão, barranco.

Naquela época a musculação já estava em evidência, já tinha o gladiador (equipamento de musculação), era um mecanismo que já se usava na década de 70.”

Pergunto se tinha um atraso dos clubes de Curitiba em relação aos do Rio e São Paulo quanto aos equipamentos.

Alfredo responde:

“Quanto aos equipamentos não, tinha quanto aos times. Na época os times do Rio e São Paulo, de Minas e Rio Grande do Sul não vendiam ninguém. Os caras ficavam 10/15 anos num time.

Eu fui emprestado para o São Paulo no Brasileiro de 1972, nunca ganhei tanto dinheiro na minha vida. Eu cheguei lá, assinei contrato, assinei ficha de abertura de conta em banco, e todo dia 1º meu salário estava depositado. Eu fiquei 7 meses lá e não mexi no meu salário. Segunda-feira, você chegava do jogo, o Gino que era o centroavante anterior a nossa época, ele era empregado do clube, estava ali com o envelopinho. Olha Alfredo, está aqui, assina aqui, já era o dinheiro do prêmio do jogo.”

 

Alfredo Gottardi Jr fala das arbitragens

Alfredo Gottardi era conhecido por ser um zagueiro extremamente técnico, não costumava fazer faltas, das pontapés, ele roubava a bola do adversário na habilidade. Perguntei a ele se alguma vez foi expulso, ele respondeu:

“Fui expulso apenas duas vezes. Uma delas em Londrina, o cara chutou a bola na minha mão e o juiz estava comprado e falou que eu tinha feito de propósito. E a outra num jogo contra o Coritiba em 1967, nós levamos uma sapecada, não lembro se foi 5 ou 6, nosso time era novo, praticamente todo mundo começando. Eu fui expulso porque eu tirei uma lateral e o juiz deu reversão, eu xinguei ele e fui expulso.

Por dar pontapé eu nunca fui expulso. Dificilmente eu fazia falta, eu atravessava campeonatos sem tomar cartão, eu tinha muito tempo de bola. Era muito técnico, eu era privilegiado, fui privilegiado. Deus me deu o dom, eu aprimorei e me dei bem com isso. Eu raramente fazia falta. Até os caras da torcida me diziam: ‘Ô Alfredo, de vez em quando dá um pontapé no cara lá.’ Principalmente quando o jogo era contra o Coritiba. Mas eu dizia: ‘Eu não sei fazer isso, não é do meu feitio’.”

Ainda sobre arbitragem, foi perguntado a Alfredo se os árbitros explicitavam que não seria fácil para o Atlético ou se eles sabiam quais árbitros eram mal intencionados.

“Tinha alguns árbitros, quando jogávamos no interior que diziam: ‘Ih, nem adianta, você veio aqui e quer ganhar o jogo? Vai ganhar lá em Curitiba.’ Então já sabíamos que naquele dia seria difícil.

Não vou citar nomes até porque alguns já faleceram. Mas tinha uns que quando estavam escalados você já sabia. Você dizia hoje vai ser um sufoco, vamos ter que ganhar do juiz e do time. E era assim mesmo, era complicado.”

Alfredo continua a falar de arbitragem:

“O Sicupira estava falando esses dias, ele ficou 8 anos no Atlético e bateu 8 pênaltis e ele era o batedor oficial do time. Então você vê que quando era pênalti é porque não tinha jeito mesmo. Não tinha como o árbitro dizer que não era.”

Alfredo relembra uma bronca que teve com o árbitro Arnaldo César Coelho:

“Essa eu faço questão de falar, em 1975 foi montado um grande time e nós ficamos de fora. Nós estávamos jogando o Campeonato Brasileiro, jogamos com o América de Minas e o Arnaldo Cesar Coelho apitando o jogo. O Bira Lopes pegou uma bola no meio de campo, driblou o time inteiro do América e ele deu impedimento. E por causa desse jogo nós ficamos fora da final.

Eu corri atrás do Arnaldo no campo, ele dizia assim: ‘Eu vou te expulsar!’ E eu dizia: ‘Expulse, eu quero que você me expulse, mas a hora que você tirar o cartão eu vou bater tanto em você e na sua cara que você vai se arrepender pro resto da sua vida.’ E ele não me expulsou. Nós empatamos o jogo em 0x0 e ficamos fora.”

O campeonato de 1972

Naquele ano o Atlético tinha um time extraordinário, segundo prof. Heriberto é o melhor time que ele já viu pelo Atlético. O Clube até fez uma boa campanha, porém, em virtude de uma excursão que o Coritiba fez à Europa seus jogos foram antecipados e eles venceram todos. Restou ao Atlético disputar uma sequência de 7 partidas sem poder perder nenhuma pois tinha apenas dois pontos a mais que o adversário.

A contusão de Ademir Rodrigues

“Uma das coisas que nos fez perder o campeonato foi a contusão de Ademir Rodrigues. Ele era um meia-esquerda que jogava muito, desequilibrava os jogos. Nós fomos jogar em Ponta Grossa, era a penúltima partida. E tinham encomendado um zagueiro pra quebrar a perna do Sicupira, mas o cara acabou quebrando a perna do Ademir Rodrigues que nunca mais jogou.”

O time de 1972

“Era uma boa equipe que infelizmente não foi campeã. Chegou o Sérgio Lopes, Almeida, Claudio Deodatto (lateral direito), então o Julio começou a jogar de lateral esquerdo e o Amauri foi pro banco. Nosso meio de campo era o Valtinho (que era do Grêmio Maringá), Sicupira e o Sérgio Lopes. Tinha também o Buião, Paulo Roberto e Nilson. Era um timaço, com Picasso no gol, ele era um baita de um goleiro, dificilmente você via ele se jogar em campo, ele estava sempre na bola.

O último jogo que fizemos em 1972, foi em Bandeirantes, logo no início Sicupira fez um gol, eles tiveram um ataque, a bola bateu na minha perna, saiu e bateu numa trave, correu a linha de gol, bateu na outra trave, voltou na mão do Picasso e jogo terminou 1×0.”

A bomba de Lori e Júlio

Alfredo fala com saudades dos colegas de equipe no Atlético e relembra uma passagem de brincadeira dos companheiros.

“Nós fomos jogar em Paranavaí, em 1971. O time vinha mal e contrataram o ‘seu’ Froner pra treinador, o supervisor era o Hélio Alves. Era mês de junho, se não me engano era dia de São Pedro ou São João, nós perdemos de 1×0 pro Paranavaí, um jogo que meu Deus do céu, nós jogamos mal pra cacete.

Depois do jogo paramos em Apucarana pra jantar. Lá tinha uma banca de revistas aberta e o Julio e o Lori compraram umas bombas. Eu era o capitão do time, falei pra eles: ‘O que vocês vão fazer com essas bombas?’ E eles: ‘Ah, nós vamos soltar aí!’ E eu: ‘Mas como vão soltar? Vai dar encrenca!’ E eles: ‘No ônibus nós jogamos pra fora do ônibus’. E eu: ‘Julio, não vão fazer isso, nós perdemos o jogo.’

E não teve jeito, na volta, o Lori sentado no banco do corredor e o Julio na janela. Um vento, um frio, o ônibus era horroso, uma jabiraca. Quando abria a janela entrava aquele vento gelado, todo mundo xingava. Eles faziam assim: o Lori acendia a bomba, o Julio abria a janela e o Lori jogava. Quando a bomba explodia, o ônibus balançava inteiro. E eu sentado atrás dizendo: ‘Julio, para com isso! Os caras já estão chiando na frente.’ O Hélio Alves e o Froner estavam sentados no primeiro banco perto da porta. E o Lori e o Julio estavam na quarta fileira.

Não é que uma hora o Lori jogou a bomba, ela bateu no vidro e caiu dentro do ônibus. Caiu no pé do Julio, ele chutou, eu só vi ela passando no meu pé. Aí nós lá, meu Deus, vocês precisavam ver a explosão, ficou uma fumaceira. O Froner pulou e ficou de pé no corredor: ‘Quem foi? Quem foi? Quem foi?’ Aí o Lori levantou o braço e disse: ‘Fui eu seu Froner, mas juro que não faço mais.’ O Lori só não foi mandado embora porque ele era afilhado do Hélio Alves.”