A campanha de sócios

Quando o presidente Passerino assumiu o Atlético o Coritiba era bicampeão do estado, tinha um super-time e todas aquela expectativa de ser tricampeão. E o Atlético estava naquela situação financeira péssima. Então, ele teve a ideia de fazer uma campanha para trazer sócios para o Atlético.

Dr. Passerino espalhou urnas pela cidade, inclusive na Boca Maldita, para que a torcida ajudasse o clube. Isso não tinha só o intuito de arrecadar dinheiro, mas de mexer com os brios da torcida atleticana. Com essa campanha o Atlético passou de 200 para 10.000 associados. Se considerada a população de Curitiba no ano de 1970, era um número bem expressivo de sócios, que pode ser comparado ao número de sócios que o Atlético possui hoje.

Um dos objetivos dessa campanha de sócios era trazer o atacante Zé Roberto de voltar para o Atlético. Dr. Passerino e os demais diretores rubro-negros tentaram conseguir o dinheiro para trazer o Zé Roberto de São Paulo. E enquanto o Atlético se mobilizava, o Evangelino levou o Zé Roberto para o Coritiba.

Professor Heriberto conta como era o Zé Roberto:
“Zé Roberto era um grande jogador, integrava a Seleção Olímpica desde 1966 e era tido pela imprensa brasileira como o sucessor de Pelé. Era um jogador de muita qualidade, chutava com as duas pernas, driblava muitíssimo bem, cabeceava magistralmente e era inteligentíssimo. Pelo Coritiba ele chegou a fazer gol de calcanhar de fora da área, chutou de calcanhar da risca da grande área e fez o gol. E não foi na louca, foi um lance consciente, ele olhou, driblou e fez de calcanhar.”

Ivan Moura complementa:
“Zé Roberto só não se tornou um Pelé, jamais se tornaria, em razão das noitadas e das mulheres. Tem fatos que ele chegou a até apanhar de treinadores, acho que foi do Nestor Alves, de toalha molhada. Porque ele fugia da concentração, pulava muro e voltava de madrugada.”

Anúncios

O tiro do delegado

No começo da década de 70 o Atlético foi jogar contra o Iguaçu em União da Vitória. O Coritiba dependia da derrota do Atlético para ser campeão. A torcida do Iguaçu armou um buzinaço com rojões em frente ao hotel que o Atlético estava hospedado, para que os nossos jogadores não dormissem.

Dr. Schiavon estava com a delegação do Atlético em União da Vitória e nos conta essa história:

“Chegamos a União da Vitória na noite anterior ao jogo com o Iguaçu e ficamos em um hotel em frente à uma praça que tem lá. E para que os jogadores do Atlético não dormissem à noite, a torcida do Iguaçu começou a andar em volta da praça buzinando e soltando rojões.

Lá por 3 horas da manhã, ninguém tinha dormido ainda. Achei que no dia seguinte nem poderíamos jogar, porque os jogadores não haviam dormido nada. Também estava no hotel um delegado, que era atleticano, e acompanhava a nossa delegação. Eu e ele saímos na sacada do hotel, de frente para a praça e ficamos olhando aquela bagunça. Até que ele disse:
‘– Deixa comigo!’ Ele disse isso e eu pensei, que será que ele vai fazer.

Nisso, eu me distraí e ele pegou o revólver, encostou no meu ouvido, entre mim e mais uma pessoa, e deu o tiro. O tiro pegou no farol de um carro, apagou tudo. Nessa altura, eu pensei, fiquei surdo, rompeu o tímpano, pensei que tinha acabado comigo. Aí eu vi toda aquela confusão, todo mundo sumiu.

Foi uma sorte o tiro não ter atingido ninguém, se ele erra, poderia ter matado alguém. Numa distância de mais ou menos 40 metros e ele acertou bem no farol de um carro.

E no dia seguinte, o Atlético ganhou o jogo, por causa daquele tiro que o delegado deu.”

Anti-dopping

A comissão anti-dopping surgiu nos anos 70. E os clubes cujos jogadores eram pegos dopados perdiam os pontos.

Em 1972 aconteceu de um jogador do Operário de Ponta Grossa ser pego no anti-dopping num jogo contra o Atlético. O Atlético fez a denúncia ao STJD, no Rio de Janeiro. E lá, os julgadores votaram contra a lei, com um deles dizendo: “Eu voto arrepiando a lei. E o meu voto é a favor do Operário de Ponta Grossa.”

Isso aconteceu porque na CBF havia um senhor, coxa-branca, que era vice-presidente do Havelange e amicíssimo do presidente da FPF. Graças a esse senhor perdemos essa votação e mais outras três no STJD. E por essa defesa em favor do Operário, ele recebeu do Coritiba um Galaxie 0KM.

A crise pré-1970

O ano de 1970 foi precedido por tempos de muitas dificuldades no Atlético. A crise era grande, muitos anos sem títulos, sem dinheiro e pra piorar sem jogar na Baixada. Em 1967 o presidente Motta Ribeiro, mesmo sem recursos, decidiu reformar a Baixada. Essa reforma foi comanda por Caju e seu irmão Alfredo Gottardi, ambos trabalharam como mestres de obras na ampliação do Joaquim Américo. Eram eles e mais alguns pedreiros, não havia muita gente trabalhando. Por conta disso, naquele ano, sem local para treinar, o clube treinava na URCA.

O ano de 1967 foi dificílimo, de 22 jogos o Atlético só venceu 03 e foi rebaixado no Campeonato Paranaense. Isso até o Jofre assumir e fazer toda aquela revolução. Jofre era um homem influente, de boas relações, por isso conseguiu montar aquele super time e também manter o Atlético na Primeira Divisão. Mesmo assim, em 1968 o Atlético não foi campeão e perdeu o título para o Coritiba, naquele gol do Paulo Vecchio na Vila Capanema.

Dr. Schiavon conta sobre o segundo turno do campeonato de 1968:
“O Britânia, o time do Munir Calluf, era o último colocado. Nós tínhamos ganho deles de 4×0 no primeiro turno e no segundo turno empatamos em 1×1. O Munir botava todas as fichas nesse jogo, ele acreditava que se eles ganhassem, ele acertaria com o Coritiba que poderia ser campeão. (Munir Calluf foi dirigente do Coritiba logo em seguida).

O jogo com o Britânia tinha tudo para ser fácil, já que este era o lanterna. Chega o jogo, estão todos os jogadores do Britânia com os braços estendidos numa mesa comprida e um monte de seringas. Doparam todos os jogadores do Britânia, um a um. Era impressionante, eu ia chamar a polícia na hora. Nunca vi um time correr como aquele. Era coisa de louco, o cara corria, dava chute, cabeceava na trave. Aquele Silvano correu como nunca naquele dia.

No fim empatamos o jogo que era uma barbada. E foi ali que começamos a perder o título de 68, esse jogo foi o crucial, se nós ganhássemos poderíamos até perder para o Seleto no jogo seguinte. Porque o Atlético havia ganho o primeiro turno e se ganhasse também o segundo, seria campeão direto.”

Diretoria de 1970

Conselho Deliberativo:
Presidente: SYLSEU PEREIRA ALVES
Vice-presidente: DR. ABILIO RIBEIRO

Conselho Administrativo:
Presidente: Dr. RUBENS PASSERINO MOURA
Vice-Presidente: Dr. LAURO RÊGO BARROS

Departamento de Finanças:
Diretores: HAILTON FANTINATO e ERNANI J. SCHMIDT
Vice Presidente: DR. CIRENO BRANDALISE
Tesoureiro: JUAREZ DIAS FRANCO

Departamento de Comunicações:
Diretor: DR. PEDRO STENGHEL GUIMARÃES
Vice-Presidente: LUCIANO A. DA SILVA ALMEIDA
Secretário: HERBERT BECKER

Departamento de Futebol Profissional:
Diretores: CLAUDIO PASSERINO MOURA e OSCAR AUGUSTO LIMA
Vice-Presidente: NELSON ZAGONEL
Auxiliar: RUY RIBEIRO DE BARROS

Departamento de Patrimônio:
Diretor de Planejamento: DR. HÉLIO B. CAMPOS
Vice-Presidente: EDMUNDO FERRO

Departamento Social:
Vice-Presidente: DR. LUIZ ARMANDO CORREIA

Departamento Médico:
Vice Presidente: DR. JOSÉ MARIA DEL CLARO

Superintendente:
DR. LUIZ GONZAGA DA MOTTA RIBEIRO

Departamento Jurídico:
Diretor: DR. AIRTON FERREIRA DO AMARAL
Vice-Presidente: DR. AMAURY MAUAD GUÉRIOS

Administrador do Estádio:
ALBERTO GOTTARDI

A importância do título de 1970

Em 25 anos o Atlético só havia conquistado dois títulos, 1949 e 1958. Era uma época de vacas magras, bem magras. Só por esse motivo o título já seria de extrema importância. Mas tinha um algo mais, desbancar os coxas que diziam aos quatro ventos que seriam tricampeões. Naquela época, apenas o Britânia havia sido tricampeão. Pela segunda vez seguida o Atlético acabava com o sonho do Coritiba ser tricampeão. Em 1958 isso já tinha acontecido. Leia mais sobre o título de 1958.

Além disso, o título de 1970 marcou muito pela expectativa que tinha ficado daquele super-time de 68. O ano de 1968 foi um marco na história do Atlético, foi o renascimento da torcida atleticana, do orgulho de torcer pelo Atlético. Infelizmente, o Atlético não conquistou o título naquele ano e tornou-se uma grande frustração para a torcida que tanto esperou.

Ivan, filho do presidente Passerino, falou sobre isso:
“O ano de 1968 marcou, eu lembro que o Atlético ganhava e saíamos eu, meu pai, meu tio e meus vizinhos todos para a Boca Maldita com bandeiras. Foi uma coisa impressionante, mas foi também uma grande decepção, inclusive com a morte do presidente. Mesmo o Atlético não tendo sido campeão, 1968 foi um ano de grande crescimento da torcida atleticana, foi um fenômeno. Por isso o ano de 1970 foi a afirmação de uma grande torcida que estava adormecida. Eu acho que também foi importante porque naquela década o Coritiba ganhou todos os títulos.”

A festa de comemoração

Depois de 11 anos sem festejar um título, a torcida atleticana comemorou como nunca. Os jogadores choravam emocionados no gramado. Djalma Santos veio de Paranaguá a Curitiba gritando na janela (aliás, foi seu último título). Sicupira e Nilson Borges vieram enrolados numa bandeira do Atlético. 

A torcida atleticana que sempre soube festejar como ninguém fez muita festa desde Paranaguá. Carros e mais carros vieram para Curitiba seguindo ônibus dos jogadores.

E em Curitiba, a festa foi na Boca Maldita até às 5h da manhã.

Dr. Schiavon e Ivan Moura contaram como foi a festa de comemoração:

Dr. Schiavon
“Foi uma coisa inacreditável, foi inesperado até para nós. Era uma carreata sem fim, quilômetros e quilômetros de carro, não sei de onde surgiram tantos carros como naquele dia. Chegou a fechar a estrada que era pista simples, as duas pistas ficaram com sentido Paranaguá-Curitiba. Ia o ônibus na frente, com toda aquela festa dentro do ônibus e aquela carreata que você olhava e virava… Era impressionante o tanto de rojão e foguete. Na entrada da cidade parecia que tinha vencido a Copa do Mundo, que por sinal tinha acontecido um pouco antes. “

Ivan
“Da volta eu não me lembro tanto, porque eu já estava ‘sonado’. Agora eu me lembro muito da saída do Joaquim Américo, eu lembro que não era ônibus como hoje, os ônibus com poltrona. Os ônibus que cederam pra torcida do Atlético eram os de linha, da cidade. O ônibus parava em frente à Baixada e a torcida invadia, saía um, já parava o outro e assim ia indo. Foi uma grande festa em Paranaguá e na volta eu dormi um pouco porque estava cansado.”