1989 – A primeira viagem ao Nordeste

Renato Sozzi contou como foi a primeira viagem da Torcida Os Fanáticos ao Nordeste, começando uma tradição da torcida atleticana de acompanhar o Atlético em todos os lugares.

“O Atlético pela primeira vez disputaria a Copa do Brasil e o jogo seria em Recife contra o Náutico, numa quarta-feira. Antes desse jogo, o Atlético jogou em Maringá e de lá fomos eu, o Julião e o Zezo pra São Paulo e então para Recife. Foram 53 horas de ônibus pra Recife, tínhamos dinheiro só pra passagem, não tínhamos dinheiro nem comer. Levamos umas cinco camisas pra vender lá.

Chegamos lá, nem conhecíamos ninguém, procurei na lista telefônica o telefone da sede do Náutico. Liguei lá perguntando se sabiam quem era da torcida organizada do Náutico, mas a mulher que atendeu não sabia o que era torcida organizada.

O jogo era no dia seguinte, nós não tínhamos nem onde dormir. Eu comprei uma Folha de Pernambuco pra nós nos cobrirmos. A gente não tinha dinheiro, só tinha a camisa do Atlético e mais nada. Até que passou um cara do Sport e nos viu lá, viu que estávamos de vermelho e preto e perguntou: ‘Vocês são da torcida do Sport?’ E nós respondemos: ‘Não, somos torcedores do Atlético Paranaense!’ Ele: ‘Atlético o quê?’ E nós: ‘Atlético Paranaense, vermelho e preto, maior que o Sport.’ E ele: ‘Não, ninguém é maior que o Sport no mundo.’ E eu: ‘Claro que é, o Atlético lá do Paraná. Onde tem um mapa do Brasil? Quero te mostrar onde fica Curitiba.’

No dia seguinte ligamos de novo no Náutico e apareceu uma mulher que se dizia entendida de torcida organizada e falou pra irmos pra lá. Quando chegamos lá ela ficou maravilhada de ter alguém do Paraná lá, nunca tinha ido ninguém daqui ver jogo lá. Ela começou a ligar pra todo mundo pra chamar pra tomar cerveja junto, faltavam horas pro jogo e o bar encheu de gente. E era cerveja pra todo lado e nós sem dinheiro pra nada. Começou a dar aquele desespero de não ter dinheiro pra pagar a conta, até que eu levantei e disse: ‘Garçom, traga a saideira pra nós e a conta que eu pago!’ Na mesma hora todo o pessoal disse: ‘Não, é por nossa conta!’ Foi um tiro no escuro, mas que deu certo, foi um alívio pra nós.”

1988 – Novamente Campeão Paranaense

Pela primeira vez depois da mudança para o Pinheirão o Atlético foi Campeão Paranaense. Mas isso não fez com o que o torcedor se sentisse motivado a ir ao estádo da Federação para acompanhar o Atlético. Os públicos continuavam cada vez piores e o desânimo com aquela situação era grande.

Na tentativa de levar mais gente até o Pinheirão, a Fanáticos contou com a ajuda do dr. Farracha que, junto de outros conselheiros, nos jogos maiores providenciavam um barril de chope e linguiça pra que fosse feito um churrasco na Baixada. Assim o pessoal aparecia pro churrasco e acabava indo pro jogo.

O grito do Coronel

A final do Campeonato foi contra o Colorado em três jogos. E logo no primeiro jogo da final, o Coronel, um folclórico torcedor criou um dos gritos mais conhecidos da torcida atleticana. Bem pausadamente ele puxou um:

A TLÉ TI COOOOOOOOOOOOOOOOOOO

Começava baixinho, gritando sozinho e cada vez gritava mais forte. Nisso a torcida começou a acompanhar, gritando meia hora sem parar junto com o Velho Coronel, num grito que virou marca registrada da torcida atleticana.

Volta e meia o Velho Coronel aparecia no Pinheirão e também na Velha Baixada puxando o seu tradicional grito.

1987 – Primeiro congresso de torcidas organizadas

Neste ano aconteceu o Primeiro Congresso Nacional de Torcidas Organizadas, como contou Renato Sozzi no 9º Encontro do Círculo de História Atleticana:

“Em 1986 começou uma época de grandes brigas entre torcidas organizadas, principalmente no estado de São Paulo. As brigas que tínhamos aqui com a Jovem e Mancha Verde, não era nem parâmetro. Força Jovem (Vasco) e Mancha Verde (Palmeiras) contra Gaviões (Corinthians) e Torcida Jovem (Flamengo) e aí começaram todas as brigas do Brasil. Como a coisa estava começando a ficar feia foi feito um Congresso Nacional de Torcidas Organizadas lá no Maracanãzinho. Todas as torcidas organizadas do Sul do Brasil foram convidadas. E e o Julião fomos representando a Fanáticos, daqui do Sul ninguém mais foi.

O congresso foi bem bacana, Zico e Arnaldo César Coelho deram palestras. Nós não tínhamos nem camisa da torcida, nossas camisas eram camisetas da Hering, enquanto as outras torcidas já tinham uniformes oficiais.

Esse Congresso foi um aprendizado pra nós, lá conhecemos toda a estrutura das torcidas organizadas e os grandes líderes. A partir daí todas as torcidas que vinham a Curitiba vinham até a Sede d’Os Fanáticos. Depois desse Congresso a Fanáticos cresceu, passou a se organizar melhor e viajar muito mais.”

Na volta desse congresso, a Fanáticos propôs um debate as demais torcidas organizadas do Paraná sobre o que havia sido discutido no Rio de Janeiro.

Respeito da Gaviões da Fiel

A Fanáticos mesmo sendo uma torcida relativamente jovem já tinha o respeito de grandes torcidas do Brasil, como relatou Renato Sozzi:

“Eu fiquei hospedado num hotel lá no Rio de Janeiro, no mesmo quarto do Flávio La Selva, que era o fundador da Gaviões. O Flávio tinha um respeito muito grande pelo ETA e pela nossa torcida. Ele me disse: ‘Renato, a torcida de vocês é a que mais cresce no Brasil.’ Eu disse pra ele: ‘Nós estamos tentando fazer alguma coisa diferente. O Atlético tem que arrumar a sua história.’

Ele me disse: ‘Não, Renato, a torcida de vocês é uma coisa diferente do Atlético. O Atlético não existe no Brasil, a torcida de vocês que é existe. Ninguém conhece o Atlético no Brasil, se você perguntar do Atlético no Nordeste ninguém sabe quem é, a Fanáticos já estão conhecendo. E vocês são uma torcida querida, todo mundo gosta d’Os Fanáticos. O dia que o Atlético começar a ser grande, disputar títulos, ninguém mais vai gostar do Atlético e nem d’Os Fanáticos.’ E ele falou pra mim que a partir daquele dia ele ia colocar no estatuto da Gaviões que a Torcida Os Fanáticos ia ser a única torcida irmã da Gaviões e que tinha que ser respeitada por todos os associados.

Carneirinho pergunta: ‘E isso aconteceu mesmo?’

Renato responde: ‘Aconteceu, mas hoje não é mais assim.’”

Primeira camisa da torcida

Até então a Fanáticos não tinha um material oficial da torcida, apenas camisetas personalizadas. A partir deste ano, foi feita uma nova camisa, com modelo idêntico ao usado pelo Atlético, com o CAP à esquerda e a caveira à direita e nas costas o escrito “Até a morte”.

Com o dinheiro arrecadado com os ônibus doados pelo Basílio Vilani a torcida confeccionou as primeiras 50 camisas.


1986 – Primeiro ano longe da Baixada

O primeiro ano longe da Baixada já mostrava o que viria pela frente, longos e difíceis anos para a vida do Atlético. Já de cara, uma amarga 6ª colocação no Campeonato Paranaense.

Naquela época Curitiba não contava com o transporte urbano integrado como hoje, o Pinheirão era muito longe para a torcida atleticana. A Torcida Os Fanáticos contava com poucos recursos, era uma dificuldade chegar até o estádio. Muitas vezes a Kombi da torcida não aguentava a viagem, graças a tanta gente e material que tinha que levar. Volta e meia a torcida chegava com o jogo já em andamento.

O tempo ia passando e cada vez menos pessoas iam aos jogos no Pinheirão. Renato Sozzi conta que era desanimador ver cada vez menos gente nas arquibancadas. E isso que era só o primeiro de longos nove anos de sofrimento.

Pra piorar, neste ano a Fanáticos ficou sem sua kombi que precisou ser devolvida ao  Ciccarino (Nação Rubro-Negra), pois ele precisava da kombi para a sua gráfica.

Na tentativa de fazer a torcida aceitar o Pinheirão, o presidente da FPF Onaireves Moura providenciou uma sala para uso da Torcida. Sala que nunca foi usada, pois não tinha como deixar o material da torcida lá sem que ninguém tomasse conta de tudo.

Apesar do presente de grego de Onaireves, a sede da Torcida Os Fanáticos continuou sendo na Velha Baixada. O Atlético abandonou seu estádio deixando de realizar toda e qualquer manutenção necessária. Quem cuidou do estádio cortando grama e o mato das arquibancadas era a Torcida Os Fanáticos.

Festa de 9 anos da Torcida

Com o auxílio do deputado Basílio Vilani (que por sinal, muito ajudou a torcida) foi realizada a primeira grande festa de aniversário da Torcida. Um churrasco no Parque Aquático marcou a comemoração.

1985 – Despedida da Baixada

1985 foi um ano difícil, primeiro o coxa é campeão brasileiro, mesmo que com saldo negativo de gols. Depois foi a nossa despedida da Baixada. O jogo que marcou a despedida da Baixada foi o último jogo do campeonato paranaense, no dia 10/11 contra o Londrina, o Atlético venceu por 3×0.

Renato Sozzi conta como foi aquele dia:

“A polícia queria resolver com a gente (torcida) como faríamos a festa do título de 85. E nós tínhamos levado um monte de foguetes. E a polícia nos liberou pra entrarmos com alicates, pra cortar o alambrado, pra que o pessoal pudesse invadir o gramado pra comemorar. Só que eles nunca pensaram é se o Atlético não tivesse ganho de 3×0, tivesse perdido ou empatado o que íamos fazer com aqueles alicates.”

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O torcedor Renato Basso entrou em contato com o blog do Círculo de História Atleticana e mandou algumas fotos desse momento da torcida atleticana invadindo o gramado da Velha Baixada. Percebam o alambrado já meio cortado para facilitar a entrada em campo.

Foto: Renato Basso

Aqui o torcedor pulando pra dentro do gramado.

Foto: Renato Basso

Atletiba das Faixas, Atletiba das torcidas

O Coritiba havia sido Campeão Brasileiro e o Atlético Campeão Paranaense. Por esse motivo, as diretorias de ambos os clubes marcaram um Atletiba amistoso de entrega das faixas.

As torcidas organizadas dos dois clubes resolveram marcar um amistoso entre si. Como contou Renato Sozzi.

“O Luís Fernando da Jovem (do Coritiba) me ligou e disse: ‘Renato, já que o Atlético e Coritiba vão fazer o Atletiba das faixas no Couto, nós podíamos fazer um Atletiba das torcidas organizadas na preliminar, que acha?’ Eu topei na hora.

Reuni ali a moçada boa de bola e mais uma malocada, afinal íamos jogar com os coxas no Couto Pereira. Fazia fila na Baixada, de gente querendo se escalar pro time. Fui lá e falei com o Nilson Borges que nos emprestou todos os calções, camisas, chuteiras. Mas teve gente que chegou com aquelas chuteiras de trava de ferro enormes, pontudas, dizendo: ‘Eu jogo com a minha artiheira’.

Antes do jogo, eu pensei, vai dar M**** isso. E pra dar um caráter de coisa oficial, eu fui na Federação Paranaense e contratei um juiz e um bandeirinha.

Chegamos no dia do jogo, fomos pro vestiário e tudo. A galera estava bem louca pra jogar. Entramos em campo, e eu vi o Luís Fernando lá das arquibancadas gritando e me chamando. Olhei pra ele: ‘Ué cara, vocês não vão jogar com a gente?’ Ele respondeu: ‘O Evangelino não deixou a gente entrar em campo.’

E nós entramos no vestiário, entramos em campo, fizemos a festa e o Evangelino não deixou os coxas entrarem nem no vestiário deles. Aí a torcida inteira do coxa levantou e começou a gritar pra ele: ‘Bunda mole! Bunda mole!’

Aí eu chamei o juiz e disse: ‘Não vai ter W.O. aqui, nós vamos jogar, nem que seja contra o senhor mesmo, faz favor de apitar esse negócio aí.’ Ele apitou, e nós fomos os 11 com a bola em direção ao gol. Depois demos a volta olímpica no estádio. E voltamos pro vestiário, a maior festa.”

1984 – Primeira comemoração de aniversário

Relacionamento com a diretoria

Com a entrada de Valmor Zimmermann na presidência do Atlético, a torcida passou a ter um relacionamento mais próximo da diretoria do Clube.

A possível união com a Guerrilheiros

Em 1984 cogitou-se a possibilidade da Fanáticos unir-se a torcida Guerrilheiros da Baixada. Marcou-se uma reunião para discutir a união que quase foi concretizada. Não fosse o voto contra de Nelson Carneirinho, que puxou outros votos contra, a união teria se concretizado. No ano seguinte, a torcida Guerrilheiros da Baixada acabou, e a Fanáticos segue até hoje.

Nação Rubro-Negra

Neste ano a torcida Nação Rubro-Negra encerrou suas atividades e doou seus materias à Fanáticos. Também foi doada uma kombi que era da Nação, coisa que ajudou muito a Fanáticos a ter um veículo para levar os materiais para os jogos. Essa kombi posteriormente foi apelidade de Kid Bala.

Em retribuição a Fanáticos passou a adotar o coração, símbolo da Nação, em sua camisa.

Primeira comemoração de aniversário

Aos sete anos de vida, a Fanáticos fez sua primeira festa de aniversário que foi marcada por um churrasco e por um bolo feito pela Sueli.

Entrada de Julião na torcida

No final deste ano, foi que Julião passou a fazer parte da torcida, trazido pelo seu amigo Gerson. Sua entrada na torcida ficou marcada por uma viagem para ver um jogo no interior.

1983 – O recorde de público

Aquele time que começou a se desenhar em 1982 com Roberto Costa, Renato Sá, Washington e Assis foi a sensação do Campeonato Brasileiro de 1983, alcançando um 3º lugar.

O jogo da semifinal contra o Flamengo marca até hoje o recorde de público do estádio Couto Pereira. 67.391 pessoas estiveram presentes naquela partida histórica, sendo a maior parte de atleticanos. Infelizmente, faltou um gol para que o Atlético passasse adiante na competição e fosse até a final.

Atlético 2x0 Flamengo, tinha gente até nas torres de iluminação

Primeiras viagens pelo Brasil

Com a boa campanha atleticana no Campeonato Brasileiro daquele ano, a torcida Os Fanáticos passou a viajar mais para acompanhar o Atlético.  Uma viagem que marcou foi a ida para São Paulo, nas quartas-de-final contra o São Paulo.

Na maior loucura a torcida saiu de Curitiba com apenas quatro dos sete ônibus pagos, com o combinado de que pagariam os demais aos motoristas em São Paulo. Isso sem ter a menor ideia de como conseguiriam dinheiro para isso.

Na chegada a São Paulo, a Gaviões da Fiel recepcionou a caravana atleticana em sua sede e se juntou ao grupo rumo ao estádio. Lá o Atlético venceu o jogo por 1×0 com gol de Assis. Foi um momento de muita comemoração, até que Renato Sozzi se dá conta de que ainda havia três ônibus a serem pagos. No desespero ele e mais outro integrante da torcida foram até os vestiários procurar algum dirigente que ajudasse a pagar os ônibus. Encontraram o Farinhaque, que junto de Osni Pacheco e Valmor Zimerman providenciaram o dinheiro que faltava. Com os ônibus pagos, rumaram para a av. Paulista invadindo o território paulista em festa rubro-negra.

Bicampeão Paranaense

No segundo semestre, mesmo desfalcado dos ídolos Washington e Assis que foram para o Fluminense, o Atlético sagrou-se bicampeão paranaense. Sem o famoso casal 20 coube ao garoto Joel os gols na final em cima do rival Coritiba. (Atlético 1×0 Coritiba e Coritiba 1×1 Atlético)