Altevir conta como foi jogar pelo rival Coritiba

Altevir conta como foi sua ida para o Coritiba em 1978, relatando que pensou primeiro nas necessidades financeiras do Atlético:

“Fui contrariado pro Coritiba em 1978, mas era profissional e não poderia dizer não. O Atlético precisava de dinheiro e a proposta foi boa, por isso eu fui pra lá.

Ele fala sobre os Atletibas que jogou defendendo o alviverde:

Os dois Atletibas que eu joguei lá nós ganhamos do Atlético. Um foi a decisão da taça Curitiba. Antes de começar o campeonato faziam o torneio Pinheiros x Colorado e Atlético x Coritiba. Nós ganhamos a decisão, o Coritiba ganhou de 2×1. E no Campeonato Brasileiro ganhamos de 1×0, gol do Liminha.

Milene pergunta:

“Não dava uma dor no coração jogar pelo Coxa e ainda ganhar do Atlético?”

Altevir responde:

Eu era profissional e tinha que jogar pra ganhar. Ficaria ruim é se estivesse no Coritiba e tomasse um gol que não podia. Você vive disso, então seja qual clube você esteja defendendo tem que ser profissional. Eu joguei muito contra o Atlético antes de jogar aqui joguei no Cascavel, no Londrina e no Maringá. E era difícil jogar na Baixada.

Pergunto como era a pressão de jogar na Baixada como adversário do Atlético.

“Olha, a Baixada antiga era assim. Você estava no gol aqui e o cara tava gritando aqui (aponta as costas) e se ouvia tudo. Eu joguei contra o Atlético ali e era uma pressão terrível.

O jogo que me trouxe para o Atlético, foi um em que o Cascavel tomou de 5×0 aqui na Baixada. Eu ainda ganhei os prêmios do jogo. Nosso time (Cascavel) era fraquíssimo e estava meio desmontado no final do campeonato. Tomamos um passeio de bola, era pra ter sido 9 ou 10. Depois daquele jogo o Atlético conversou comigo pra eu vir pra cá.

Era muito difícil jogar contra o Atlético na Velha Baixada. Depois quando eu vim pra cá ficou uma maravilha. Aí era ao meu favor e eu ainda caí nas graças da torcida.”

Altevir fala sobre a torcida atleticana

Altevir conta como era o seu relacionamento com a torcida no dia a dia:

“A gente tinha muito contato com a torcida, desde os treinos na Baixada que a torcida acompanhava. Eu sempre andei pelo centro de Curitiba, pela rua XV, era a glória, passava por ali e todo mundo me reconhecia. Eu chegava nos lugares e não podia pagar nada. Ia comprar roupa, não me deixavam pagar. Ia a um restaurante, quando pedia a conta, já estava paga. Além disso, tinha o reconhecimento do torcedor na rua, paravam pra conversar, queriam saber como estava o time, se eu continuaria no time. O relacionamento com a torcida era excelente.”

Ele fala também sobre a torcida na arquibancada:

“A torcida sempre foi exigente, em qualquer época.

O único lugar que eu entro e que ainda me arrepia, é quando estou na Baixada e o time entra em campo. Esses tempos na decisão do campeonato nós entramos em campo e levamos a bandeira.

Sempre lembro da entrada em campo. Antes do jogo ficava naquela tensão, queria ouvir o que otreinador tinha pra falar e ir pro jogo. Quando entrava naquela Baixada, dava uma relaxada nessa tensão pré-jogo.”

Altevir fala ainda da mística da Baixada e da reação dos adversários ao terem que jogar no estádio atleticano:

“Os jogadores adversários, os zagueiros principalmente, ficavam muito preocupados de jogar na Baixada. Quando o Atlético me contratou, eu estava no Cascavel e naquele jogo tomamos de cinco. Na mesma semana jogamos em Curitiba com o Coritiba e lá empatamos em 0x0.

Os jogadores ficavam muito preocupados de jogar na Baixada. A proximidade, a pressão da torcida do Atlético assustavam os adversários.”

Prof. Heriberto complementa falando do crescimento que a torcida atleticana teve na década de 70, época em que Altevir jogou.

“Só que nestes 12 anos a torcida atleticana sempre foi crescendo. Vamos falar de 1970 a 1982, foi uma torcida sempre sofrida, mas que a partir da revolução do Jofre e do título de 70, foi crescendo gradativamente. Aquele estigma de ser uma torcida elitista foi quebrado, o povão começou a entrar pra torcida. A partir da revolução do Jofre com Djalma Santos, Bellini e companhia e o Atlético começando a aparecer no cenário nacional, é impressionante o crescimento da torcida atleticana em volume.”

Milene finaliza:

“É isso que nos diferencia, a paixão que o atleticano tem. O normal do Atlético era sofrer e ser fiel. Porque o nosso normal era ser roubado, ter time fraco, ter crise, ter problemas, falta de dinheiro. O normal do Atlético sempre foi isso, era não ter gente pra assumir a diretoria. Então sempre foi uma coisa que foi resolvida com paixão, tem problema então vamos lá resolver.”

Altevir fala sobre os técnicos com quem trabalhou

Altevir trabalhou com muitos técnicos em sua carreira, mas o que mais marcou pra ele foi Valdemar Carabina que foi técnico do Atlético na década de 70.

“O Valdemar Carabina foi o que mais me marcou. Até porque foi aquilo que eu já falei antes, naquela época não havia treinador de goleiros e ele implantou isso no Atlético. Ele fez um estudo disso, trouxe uma cartilhazinha de treinamento.

Eram poucos clubes que treinavam o goleiro de maneira diferenciada e o Atlético foi um dos primeiros, com o Valdemar Carabina. O Valdir fazia no Palmeiras, no São Paulo o Pói fazia isso, mas o Pói era argentino, era treinador do treinador de goleiros. O Pói foi pra Argentina trouxe alguma coisa de lá. Depois que começou aqui no Paraná, teve o Odilon Silva que nem foi goleiro e foi treinador. A partir daí que surgiram os preparadores de goleiros.

Então pra mim o Carabina foi o cara, ele me deu oportunidade. Ele me disse: ‘Se você jogar o que está jogando, pode vir quem vier, você será o titular.’ São coisas que se precisa, eu precisava de uma oportunidade pra me firmar e ninguém me dava essa oportunidade, até por eu ser prata da casa.”

Altevir conta a técnica que tinha para pegar pênaltis

Altevir pegou muitos pênaltis durante sua carreira. Ele conta que tinha uma técnica de estudar o adversário.

“Naquela época sempre passavam os tapes dos jogos e eu estudava o jeito que o cara batia na bola. A não ser que o cara mudasse, normalmente eu sabia o jeito que ele batia e acertava o canto.

Eu gostava de enfrentar batedor de pênalti que tivesse habilidade, aquele jogador que vinha olhando para o goleiro. Eu tinha uma técnica, normalmente ameaçava ir num canto e ia no outro. Jogador que é habilidoso ele vem mais lento na bola, vem olhando pro goleiro. Quando ele estava chegando na bola eu ameaçava cair de um lado, e quando ele estava batendo eu voltava e caía do outro lado. Então o canto normalmente eu acertava, pegar já era uma outra questão. Eu peguei assim contra o Remo, peguei dois pênaltis num jogo que foi 1×1. Contra o Botafogo de Ribeirão Preto peguei dois com Jorginho contra o Palmeiras.

Eu essa tinha técnica, mas teve um batedor, João Paulo que jogou no Santos, esse eu estudava, estudava e eu nunca consegui pegar pênalti dele. Eu ameaçava, ameaçava, ele esperava até o final, aí eu caía pra um lado a bola quase nem chegava na rede. Ele era o meu desafio.”

Um jogo na neblina

Professor Heriberto pede que Altevir conte sobre um jogo contra o União Bandeirantes que foi realizado no estádio do Colorado, numa noite de muita neblina.

Altevir conta como foi:

“Aquele jogo foi em 1975, Atlético 1×1 União Bandeirante.

Antes do jogo o Carabina falou assim: ‘Alfredo, hoje está garoando, está molhado, a bola vem longa, não vai me dominar em cima do pé porque ela tá lisa.’ Mas parece que foi um castigo. Lançaram uma bola longa, ele foi dominar, a bola resvalou no pé dele, o Machado, um centro-avante do União saiu e fez o gol.

Aí discutiram no intervalo, o Alfredo e o Carabina. O Carabina não tinha paciência, ele era pavio bem curto. Quando ele estourou, falou um monte, e o Alfredo retrucou: ‘Não está bom, me tira.’ Aí ele mandou chamar o Mauro que era um zagueiro.

Nós fizemos um gol, que eu não consegui ver, de tanta neblina que tinha. Eu só enxergava até a metade do campo, o outro lado não dava pra ver.”

Altevir conta como era o material de jogo na sua época

“Quando eu comecei a jogar nem tinha luva, imagina nos dias de chuva e frio em Curitiba, uma garoa, a bola pesada, você sem luvas e aquele frio. Eu passei a profissional em 1971 com umas luvas que tinham uma borracha igual àquelas raquetes de ping-pong. Você tinha que ter uma técnica muito boa porque na chuva ela ficava muito lisa, então você tinha que fechar bem. Hoje você molha a luva, a bola vem e cola na sua mão. Então o material de jogo, as luvas e as chuteiras são melhores.

Antigamente camisa de goleiro tinha um acolchoado aqui na frente. Não protegia nada, chovia e aquela camsia pesava quase um quilo. As bolas de hoje são impermeáveis, a bola naquele tempo absorvia água. O couro ficava parecendo uma gosma, aquilo ficava liso. Tinha que espalmar, porque não tinha jeito de segurar.

Então o material esportivo era de pior qualidade, a roupa de goleiro era pesada. Isso tudo antes de 1971, 1972. A partir daí já começou a melhorar o uniforme, tecidos de melhor qualidade. Em 1975 veio a Adidas, as primeiras Adidas jogava uns dois ou três jogos já estourava tudo. Depois começou a vir umas chuteiras da Olympikus com tarracha de se trocar, trave mais alta e mais baixa.”

Altevir o goleiro que ficou 1066 minutos sem tomar gol

Altevir conta com foi ficar 1066 minutos sem levar um único gol sequer. Fora quase 12 partidas inteiras, um recorde no estado do Paraná.

“Nessa trajetória teve lances incríveis, teve três pênaltis, dois na trave e um eu peguei. As grandes defesas são aquelas que você salta pra pegar uma bola achando que não dá e pega. Então teve bolas que eu ia achando que não dava e acabava pegando. Teve um lance, estávamos ganhando o jogo de 1×0, finalzinho do jogo eu saí numa bola com o Cláudio Deodato. E eu corri na risca da área, próximo a linha de fundo pra ele me devolver a bola, que naquela época eu ainda podia pegar com a mão. E ele resolveu driblar o cara e perdeu a bola, e nós dois aqui, bem no risco da grande área com a linha de fundo. E o cara tocou lá na entrada da área, eu saí correndo, o cara ameaçou bater, eu caí, ele só tocou do outro lado, eu só tirei com o bico da chuteira. Era uma jogada sem chance.

O fato de ficar 1066 minutos sem tomar gol foi uma boa fase. Às vezes você tem que estar bem, mas estar numa fase boa pra dar tudo certo. Pra você jogar você precisa estar super concentrado. Se você jogar no gol e perder um segundinho de contração você toma o gol. Além disso tem que estar bem fisicamente.”

Essa série invicta de Altevir aconteceu no ano de 1977 e durou praticamente dois meses. No dia 21/06/77, num jogo contra o União  Bandeirante, Altevir tomou um gol aos 14 minutos do primeiro tempo e depois disso, só foi sofrer outro gol no dia 28/08/77 aos 16 minutos do primeiro tempo, num jogo contra o Grêmio Maringá. Coube ao jogador Itamar do time maringaense quebrar a série de jogos sem gols.

Segue a relação dos jogos em que Altevir ficou invicto:

25/06/77 – Atlético 1×0 Londrina
29/06/77 – Atlético 6×0 Mourãoense
03/07/77 – Coritiba 0x0 Atlético
10/07/77 – Atlético 1×0 Colorado
13/07/77 – Atlético 0x0 Matsubara
17/07/77 – Iguaçu 0x0 Atlético
20/07/77 – Atlético 0x0 Coritiba – Prorrogação: Atlético 1×0
31/07/77 – Atlético 0x0 União Bandeirante
07/08/77 – Matsubara 0x1 Atlético
14/08/77 – Colorado 0x0 Atlético
17/08/77 – Atlético 1×0 Iguaçu

Nota: Durante essa sequência, houve alguns jogos em que o reserva Cícero atuou como titular. Esses jogos não foram inclusos na listagem acima.