A entrada da rua Pasteur

Renato Sozzi contou uma interessante história sobre  recuperação da rua Pasteur pelo Atlético, graças à intervenção da Torcida Os Fanáticos. (História que deve ter acontecido em 1992).

“Naquela época a Baixada estava totalmente abandonada, tudo por lá estava quebrado. E ali do lado tinha a LBV. A rua Pasteur entrava dentro do espaço da Baixada (onde hoje é o portão de entrada da Getúlio Vargas), e como tudo no Atlético estava abandonado a LBV tomou conta do espaço.

Nós estávamos num bar, tomando umas cervejas entre o pessoal da torcida, e apareceu lá o dr. Farracha. Ele nos disse: ‘Como nós estamos pensando em voltar pra Baixada nós teremos que recuperar aquele pedaço que a LBV tomou conta. Vocês garantem fazer algo lá? Sem violência?’ Eu disse: ‘Pode deixar que eu garanto!’

Nós reunimos a galera e arrumamos umas picaretas, machadinhas, enxadas velhas, o que fosse possível. Saímos lá no meio da arquibancada, parecia que estávamos indo pra uma guerra, só faltava estarmos camuflados. E tudo silencioso pra não chamar a atenção. Chegamos lá, demos uma olhada, tinha um cadeado enorme e o portão era de madeira. Nós vimos que se quebrássemos as duas madeiras ao mesmo tempo, ela caía inteira. Foi o que nós fizemos, quebramos e abriu tudo. Eles já tinham feito um monte de salinhas lá, com instrumentos, livros etc. Nós não destruímos nada, mas pegamos aquilo lá e empilhamos num canto.

Até que apareceu um pessoal da LBV lá dizendo que estávamos invadindo, chamaram polícia. A polícia gostava de descer o cacete na torcida, já gritaram que era torcida organizada, logo já apareceu mais um monte de polícia na Getúlio Vargas, uns 15 ou 20 carros de polícia.

Até que chegou o Farinhaque com o Mafuz, o Mafuz com um papel na mão dizendo: ‘Ei ei, policial, eu sou advogado do Atlético, eu tenho um documento assinado pelo juiz, de reintegração de posse. Eles são da nossa torcida, não estão quebrando nada, estão fazendo a reintegração de posse que foi autorizada pelo juiz.’ Os policiais não sabiam de nada, os da LBV menos ainda, o Atlético foi no grito, nós querendo porrada, os policiais pensaram, nós que não vamos nos meter nessa história.

Quando eles foram embora o Mafuz se matava de rir, porque ele tinha acabado de fazer o papel lá na Sede do Atlético e assinado naquela hora. Mas isso foi importante pra história do Atlético, hoje nós temos aquela entrada da Getúlio Vargas, graças àquele dia.”

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1992 – Começa a reconstrução da Baixada

A Pedra Fundamental

Nas palavras de Renato Sozzi:

“O Carlinhos Sabiá era um grande ídolo que tinha voltado a jogar no Atlético. Ele chegou com o Farinhaque de carro na Baixada pra lançar a pedra fundamental. Que nada mais era que um canteirinho de flores,  onde colocaram um pedaço de madeira no meio daquele mato todo que estava a Baixada.”

Renato conta ainda sobre a ansiedade de Farinhaque com as obras da Baixada:

“Prof. Heriberto, vou contar uma história agora, que nem o senhor sabe. Eu tenho uma admiração pelo Farinhaque. Já tinham passado pelo Atlético dirigentes como Moura, Valmor Zimermann que tinham dinheiro, e ele Farinhaque não tinha nada, não era ilustre, nem milionário, pelo contrário era pobre.

Na época ele deu a cara pra bater pra construir a Baixada, estava tudo abandonado. E por isso, ele ‘viajava’ com a construção.

Eu morava no Boqueirão, era meio longe, ele chegava de madrugada lá em casa, lá por 2h – 3h da manhã. Minha mãe ia ver e me chamava: ‘Renato, tem um senhor lá fora procurando você.’ Era o Farinhaque.

Nós íamos de madrugada pra Baixada, só pra ver as obras e ficávamos andando lá no escuro. E ele ia dizendo: ‘Ali vão ser os camarotes, ali vai ser a luz, ali vai ser não sei o que.’ E não foi apenas uma vez que isso aconteceu, umas três vezes ele foi me buscar em casa de madrugada pra ver a Baixada.”

Prof. Heriberto acrescenta:

“Essa história da volta à Baixada que o Renato contou é algo extraordinário. E tem um pormenor que o Farinhaque fez. Ao dizer, nós vamos reconstruir a Baixada, ele rompeu com a Federação. E ainda a processou.

Com a ajuda do Mafuz eles entraram com uma ação na justiça contra a Federação. Utilizando-se para o argumento jurídico de duas cláusulas daquele famigerado arrendamento por 100 anos do Pinheirão, que não estavam sendo cumpridas pelo Moura. Para assim poder rescindir o contrato e receber dividendos.

Uma das cláusulas dizia que tudo que tudo aquilo que fosse vendido e feito no Pinheirão, durante essa vigência dos 100 anos, a Federação se obrigaria a dar 10% para o Atlético. Tinha circo, feirão de automóvel, todas as cadeiras que foram vendidas, e o Moura nunca repassou um centavo para o Atlético.

Cinco anos depois, em 1997, (isso foi em 1992) o juiz promulgou a sentença e deu ganho de causa para o Atlético. E depois nas instâncias superiores o Atlético continuou ganhando. Hoje o Atlético é detentor de uma dívida da Federação com o Atlético de 4 milhões de dólares, devidamente corrigidos desde 97. Já são doze anos. E em razão disso, o Atlético penhorou uma das partes do Pinheirão na época, penhora que continua até hoje. Graças ao Farinhaque o Atlético tem hoje em torno de 15 milhões de dólares pra receber da Federação.

1991 – Baixada Já

O Atlético havia sido campeão no anterior, mas em 1991 estava muito mal em campo. E além disso, estava mal das pernas, sem dinheiro pra nada, já não se pagava mais ninguém.

A torcida atleticana não aguentava mais aquela situação no Pinheirão e começou um movimento chamado de Baixada Já. Foi nessa época que surgiu aquela música:

“E eu falei, viva a Baixada e que se f*** o Pinheirão”.

Renato Sozzi conta como foi essa época:

“Nessa época, o Moura mandava a polícia bater na torcida do Atlético. Nós começávamos a protestar e xingar o Pinheirão e o Onaireves manda a polícia descer o cacete na gente. O Farinhaque saía lá das sociais pra separar briga, teve uma vez ele se meteu no meio da polícia e levou uma porrada nas costas, saiu na primeira página da Tribuna.

Aí, o Moura viu que a polícia não ia adiantar e me chamou na Federação. Ele era presidente do PRN (partido político) aqui no Paraná. Ele me disse: ‘Vou direto ao assunto, você está me incomodando quero que você vá trabalhar no PRN em Londrina. Eu te pago tanto (na época era uma fortuna), mas quero que você suma daqui.’ Sozzi disse: ‘Mandei ele à m****.’

O dr. Farracha já estava com a torcida desde o início na briga pela volta da Baixada. Tendo inclusive mandado fazer decalques com o escrito: BAIXADA JÁ. Campanha que começou no contra a Portuguesa. Nós perdemos aquele jogo, e fizemos uma Volta Olímpica no Pinheirão, eram os 800 de sempre, mas os 800 estavam na Volta Olímpica, chegamos na frente das sociais: FARINHAQUE FDP, mudamos o The Wall pro Farinhaque. Ele ficou indignado. Nosso problema não era com o Farinhaque, nós estávamos putos da cara, queríamos sair do Pinheirão e voltar pra Baixada.

Quando chegamos na Baixada eu e o Farinhaque brigamos, de tapa. Ele me falou que jamais ia aceitar aquilo. Eu chamei ele de presidente de merda, disse que ele não tinha coragem de fazer a Baixada. Demos um tapa um na cara do outro. E só voltamos a nos falar no jogo contra o Galo Mineiro lá em Minas Gerais, quando o Carletto me chamou na arquibancada e disse: ‘Porra, vocês dois são grandes atleticanos, querem a mesma coisa, vamos fazer as pazes.’

Depois disso, o Farinhaque chamou os seus pares de diretoria e disse: ‘Vamos construir a Baixada.’ Ele nem sabia como ia fazer, mas fez. E a primeira doação pra essa volta foi a Torcida Os Fanáticos que fez. Eu fui na Câmara e na Assembleia e peguei dinheiro com todos os vereadores e deputados que eu conhecia, os que eu não conhecia eu insisti para os outros pedirem. Demos 8 mil tijolos para ajudar, foi feito um Livro de Ouro das doações e lá está a Torcida Os Fanáticos como responsável pela primeira doação pra reconstrução da Baixada.

A partir disso começaram a aparecer doações de grandes atleticanos. Mesmo assim era difícil, o Atlético não tinha dinheiro, aquilo parecia que não ia sair nunca. Naquela época eu tinha acesso livre na sala da diretoria e me lembro que um dia estava lá e o Farinhaque passou a mão no telefone e ligou pro Ney Braga, dizendo: ‘General, fala com o Antônio Ermírio e manda trazer uns 200 caminhões de cimento, eu tenho que mostrar pra torcida.’”

Prof. Heriberto conta uma história incrível que aconteceu nessa época:

“Teve um fato extraordinário que eu presenciei nessa época. Eu era secretário do Conselho, era o Diretor do Patrimônio Histórico e Cultural do Atlético. E chegou um sujeito humilde, de bicicleta, com um saco de cimento atrás e disse: ‘Essa é a minha contribuição para a construção da Baixada.’

Foi algo fenomenal que até hoje me emociona, aquele sujeito humilde, de bicicleta, uma bicicleta velha, dizer: ‘Essa é a minha contribuição.’

Esse é o espírito do torcedor atleticano, a garra que o torcedor sempre teve em prol da camisa vermelha e preta. Pra defender o Atlético, um abnegado, deve ter tirado dinheiro do pão ou do litro de leite do filho, pra levar um saco de cimento. Isso é fenomenal.”