A exposição no Shopping Mueller

O prof. Heriberto contou um fato que aconteceu numa época em que o Atlético fez uma exposição do seu material histórico no Shopping Mueller.

“A primeira exposição a respeito da história do Atlético tinha acontecido em 1985, no Shopping Itália. E, em 1986, junto com o Zinder Lins, nós fizemos uma exposição de algumas fotografias e alguns troféus no Shopping Mueller. Lá conseguimos duas lojas no sub-solo, sem custo, graças ao um diretor* do Atlético.

Esse diretor, entrou em contato com o dono do Shopping Mueller, o Salomão Soifer, que é torcedor do coxa. E com ele conseguiu as lojas de graça, para a exposição. E eu não conhecia o Salomão Soifer, sabia quem era só de nome, mas não o conhecia pessoalmente.

A exposição durou em torno de uns 10 dias e em torno de duas a três mil pessoas passaram por lá para nos prestigiar. Eu e o Zinder sempre chegávamos cedo, lá por 9h, antes do shopping abrir, pra dar uma ajeitada nas coisas. E lá pelo terceiro ou quarto dia, nós chegamos ainda mais cedo, às 8h da manhã já estávamos no shopping. O Zinder entrou na loja e eu fiquei do lado de fora, de costas para o corredor do Mueller, olhando pra loja. Nisso vem um sujeito pelo corredor, chega junto de mim, nas minhas costas e diz: ‘VOU TER QUE AGUENTAR ESSA M***** AQUI, É?’

Eu só virei o rosto e disse: ‘É, VOCÊ VAI TER QUE AGUENTAR ESSA M**** PORQUE AQUELES M**** LÁ DE CIMA NÃO SABEM FAZER ISSO. SÓ NÓS É QUE TEMOS PEITO E CRIATIVIDADE PARA FAZER ISSO. NÓS SOMOS OS ÚNICOS!’

Quando eu terminei de dizer isso, nós somos os únicos, grita alguém lá de trás: ‘Ei, Salomão, bom dia!’ Não precisa me dizer que aquele frio na espinha correu, né!? Eu nem olhei pra trás e ele se virou e foi cumprimentar a pessoa, que era esse diretor que conseguiu a loja pra nós. Enquanto eles conversavam, eu fui falar com o Zinder que me diz: ‘Ei, Heriberto, você xingou o cara!’ O Zinder Lins era todo gentleman.

Aí, vem esse diretor, bate nas minhas costas e diz: ‘Parabéns, Heriberto, você moeu o Salomão Soifer.’ E eu disse: ‘Era ele, o dono do Mueller?’ E nós caímos na gargalhada, moí o Salomão Soifer, sem saber quem ele era, dentro da casa dele, com as lojas de graça para a exposição do Atlético.”

* O prof. Heriberto não conseguiu se lembrar do nome do diretor, apenas lembrou-se que era o dono da Joalheria Aurora na Saldanha Marinho.

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1994 – A reinauguração da Baixada

Quis o destino que Farinhaque que tanto lutou para que o Atlético voltasse à Baixada tivesse seu mandato encerrado no final de 1993. Ficando a cargo do presidente Hussein Zraik a reinauguração do estádio. Então, no dia 22 de maio, a Baixada era reaberta num jogo contra o Flamengo. O Atlético venceu por 1×0, com gol de Ricardo Blumenau.

E por conta dessa mudança de diretoria, Farinhaque (injustamente) não foi convidado para estar entre as personalidades na inauguração da Baixada. A Fanáticos não deixou por menos e o convidou para estar entre a torcida neste dia tão especial. Então, usando uma camisa da Fanáticos, foi que Farinhaque assistiu, com lágrimas nos olhos, àquela partida.

O bandeirão

Logo após a reinauguração da Baixada, Mauro Singer procurou Renato Sozzi com o intuito de oferecer um bandeirão à a Torcida Os Fanáticos. Medimos o tobogã para fazer o bandeirão do tamanho exato para ocupar toda aquela área.Então nos foi doado um tecido especial e resistente, que era usado para fazer paraquedas.

Ganhamos o tecido, mas precisávamos conseguir quem fizesse a pintura do bandeirão. Então, o Belotto conseguiu na Base Aérea uma pessoa que fazia pintura de balões e paraquedas e assim foi feito. Gastamos todas as economias da torcida e no dia 11 de setembro foi esticada nas arquibancadas da Baixada a maior bandeira de torcida na história do futebol paranaense.

Saída de Renato Sozzi da presidência da torcida

Depois de 15 anos à frente da Torcida Os Fanáticos, Renato Sozzi passou seu posto a José Carlos Belotto, um dos fundadores da torcida. Antes de sair, Renato ajudou na elaboração do estatuto oficial da torcida que passou a ter o nome de Associação Recreativa Torcida Organizadas Os Fanáticos. Nessa ocasião foi registrado o símbolo da caveira e o slogan “Atlético até a morte”.

Curiosidades (Renato Sozzi)

Renato Sozzi contou duas curiosidades que aconteceram na época em que ele era presidente da Torcida Os Fanáticos.

Galvão Bueno

“Teve um Atletiba no Pinheirão, na época que o Galvão Bueno foi contratado pela CNT. E naquele jogo, ele ficou encantado com a torcida do Atlético. Isso porque nós cantávamos uma paródia do samba-enredo Pega no Ganzê. Ele (Galvão) me disse, olha só Renato, lá no Rio de Janeiro ninguém canta uma música de samba-enredo assim como vocês cantaram aqui, o estádio inteiro cantando.”

Renaldo

“A maior parte dos jogadores do Atlético morava numa pensão e outros moravam embaixo das sociais. E a dona Cris, mulher do Pereirinha, tinha aberto um restaurante no ginásio e servia almoço pros jogadores, que almoçavam lá todos os dias e penduravam a conta. E aquela conta ia aumentando, aumentando e o Farinhaque não pagava.

Como nós da torcida íamos lá também, um dia ela nos pediu pra que falássemos com a diretoria pra que pagassem aquela conta. O Farinhaque me disse que não tinha como pagar. E com isso, uma vez a dona Cris foi radical e não serviu o almoço. Os jogadores iam jogar no domingo e eles não iam almoçar sexta, sábado e domingo.

E eu vi aquilo, falei com o Renaldo, ele era um piá, era pobre, mas era o nosso ídolo. Ele me disse que metade dos jogadores estava morrendo de fome. Então eu fui com ele até um mercado e fiz uma feira. Comprei do meu dinheiro, do meu trabalho, comida para que os jogadores pudessem almoçar. Não sabia como eles iam cozinhar aquilo, mas comida tinha.”

A entrada da rua Pasteur

Renato Sozzi contou uma interessante história sobre  recuperação da rua Pasteur pelo Atlético, graças à intervenção da Torcida Os Fanáticos. (História que deve ter acontecido em 1992).

“Naquela época a Baixada estava totalmente abandonada, tudo por lá estava quebrado. E ali do lado tinha a LBV. A rua Pasteur entrava dentro do espaço da Baixada (onde hoje é o portão de entrada da Getúlio Vargas), e como tudo no Atlético estava abandonado a LBV tomou conta do espaço.

Nós estávamos num bar, tomando umas cervejas entre o pessoal da torcida, e apareceu lá o dr. Farracha. Ele nos disse: ‘Como nós estamos pensando em voltar pra Baixada nós teremos que recuperar aquele pedaço que a LBV tomou conta. Vocês garantem fazer algo lá? Sem violência?’ Eu disse: ‘Pode deixar que eu garanto!’

Nós reunimos a galera e arrumamos umas picaretas, machadinhas, enxadas velhas, o que fosse possível. Saímos lá no meio da arquibancada, parecia que estávamos indo pra uma guerra, só faltava estarmos camuflados. E tudo silencioso pra não chamar a atenção. Chegamos lá, demos uma olhada, tinha um cadeado enorme e o portão era de madeira. Nós vimos que se quebrássemos as duas madeiras ao mesmo tempo, ela caía inteira. Foi o que nós fizemos, quebramos e abriu tudo. Eles já tinham feito um monte de salinhas lá, com instrumentos, livros etc. Nós não destruímos nada, mas pegamos aquilo lá e empilhamos num canto.

Até que apareceu um pessoal da LBV lá dizendo que estávamos invadindo, chamaram polícia. A polícia gostava de descer o cacete na torcida, já gritaram que era torcida organizada, logo já apareceu mais um monte de polícia na Getúlio Vargas, uns 15 ou 20 carros de polícia.

Até que chegou o Farinhaque com o Mafuz, o Mafuz com um papel na mão dizendo: ‘Ei ei, policial, eu sou advogado do Atlético, eu tenho um documento assinado pelo juiz, de reintegração de posse. Eles são da nossa torcida, não estão quebrando nada, estão fazendo a reintegração de posse que foi autorizada pelo juiz.’ Os policiais não sabiam de nada, os da LBV menos ainda, o Atlético foi no grito, nós querendo porrada, os policiais pensaram, nós que não vamos nos meter nessa história.

Quando eles foram embora o Mafuz se matava de rir, porque ele tinha acabado de fazer o papel lá na Sede do Atlético e assinado naquela hora. Mas isso foi importante pra história do Atlético, hoje nós temos aquela entrada da Getúlio Vargas, graças àquele dia.”

1992 – Começa a reconstrução da Baixada

A Pedra Fundamental

Nas palavras de Renato Sozzi:

“O Carlinhos Sabiá era um grande ídolo que tinha voltado a jogar no Atlético. Ele chegou com o Farinhaque de carro na Baixada pra lançar a pedra fundamental. Que nada mais era que um canteirinho de flores,  onde colocaram um pedaço de madeira no meio daquele mato todo que estava a Baixada.”

Renato conta ainda sobre a ansiedade de Farinhaque com as obras da Baixada:

“Prof. Heriberto, vou contar uma história agora, que nem o senhor sabe. Eu tenho uma admiração pelo Farinhaque. Já tinham passado pelo Atlético dirigentes como Moura, Valmor Zimermann que tinham dinheiro, e ele Farinhaque não tinha nada, não era ilustre, nem milionário, pelo contrário era pobre.

Na época ele deu a cara pra bater pra construir a Baixada, estava tudo abandonado. E por isso, ele ‘viajava’ com a construção.

Eu morava no Boqueirão, era meio longe, ele chegava de madrugada lá em casa, lá por 2h – 3h da manhã. Minha mãe ia ver e me chamava: ‘Renato, tem um senhor lá fora procurando você.’ Era o Farinhaque.

Nós íamos de madrugada pra Baixada, só pra ver as obras e ficávamos andando lá no escuro. E ele ia dizendo: ‘Ali vão ser os camarotes, ali vai ser a luz, ali vai ser não sei o que.’ E não foi apenas uma vez que isso aconteceu, umas três vezes ele foi me buscar em casa de madrugada pra ver a Baixada.”

Prof. Heriberto acrescenta:

“Essa história da volta à Baixada que o Renato contou é algo extraordinário. E tem um pormenor que o Farinhaque fez. Ao dizer, nós vamos reconstruir a Baixada, ele rompeu com a Federação. E ainda a processou.

Com a ajuda do Mafuz eles entraram com uma ação na justiça contra a Federação. Utilizando-se para o argumento jurídico de duas cláusulas daquele famigerado arrendamento por 100 anos do Pinheirão, que não estavam sendo cumpridas pelo Moura. Para assim poder rescindir o contrato e receber dividendos.

Uma das cláusulas dizia que tudo que tudo aquilo que fosse vendido e feito no Pinheirão, durante essa vigência dos 100 anos, a Federação se obrigaria a dar 10% para o Atlético. Tinha circo, feirão de automóvel, todas as cadeiras que foram vendidas, e o Moura nunca repassou um centavo para o Atlético.

Cinco anos depois, em 1997, (isso foi em 1992) o juiz promulgou a sentença e deu ganho de causa para o Atlético. E depois nas instâncias superiores o Atlético continuou ganhando. Hoje o Atlético é detentor de uma dívida da Federação com o Atlético de 4 milhões de dólares, devidamente corrigidos desde 97. Já são doze anos. E em razão disso, o Atlético penhorou uma das partes do Pinheirão na época, penhora que continua até hoje. Graças ao Farinhaque o Atlético tem hoje em torno de 15 milhões de dólares pra receber da Federação.

1991 – Baixada Já

O Atlético havia sido campeão no anterior, mas em 1991 estava muito mal em campo. E além disso, estava mal das pernas, sem dinheiro pra nada, já não se pagava mais ninguém.

A torcida atleticana não aguentava mais aquela situação no Pinheirão e começou um movimento chamado de Baixada Já. Foi nessa época que surgiu aquela música:

“E eu falei, viva a Baixada e que se f*** o Pinheirão”.

Renato Sozzi conta como foi essa época:

“Nessa época, o Moura mandava a polícia bater na torcida do Atlético. Nós começávamos a protestar e xingar o Pinheirão e o Onaireves manda a polícia descer o cacete na gente. O Farinhaque saía lá das sociais pra separar briga, teve uma vez ele se meteu no meio da polícia e levou uma porrada nas costas, saiu na primeira página da Tribuna.

Aí, o Moura viu que a polícia não ia adiantar e me chamou na Federação. Ele era presidente do PRN (partido político) aqui no Paraná. Ele me disse: ‘Vou direto ao assunto, você está me incomodando quero que você vá trabalhar no PRN em Londrina. Eu te pago tanto (na época era uma fortuna), mas quero que você suma daqui.’ Sozzi disse: ‘Mandei ele à m****.’

O dr. Farracha já estava com a torcida desde o início na briga pela volta da Baixada. Tendo inclusive mandado fazer decalques com o escrito: BAIXADA JÁ. Campanha que começou no contra a Portuguesa. Nós perdemos aquele jogo, e fizemos uma Volta Olímpica no Pinheirão, eram os 800 de sempre, mas os 800 estavam na Volta Olímpica, chegamos na frente das sociais: FARINHAQUE FDP, mudamos o The Wall pro Farinhaque. Ele ficou indignado. Nosso problema não era com o Farinhaque, nós estávamos putos da cara, queríamos sair do Pinheirão e voltar pra Baixada.

Quando chegamos na Baixada eu e o Farinhaque brigamos, de tapa. Ele me falou que jamais ia aceitar aquilo. Eu chamei ele de presidente de merda, disse que ele não tinha coragem de fazer a Baixada. Demos um tapa um na cara do outro. E só voltamos a nos falar no jogo contra o Galo Mineiro lá em Minas Gerais, quando o Carletto me chamou na arquibancada e disse: ‘Porra, vocês dois são grandes atleticanos, querem a mesma coisa, vamos fazer as pazes.’

Depois disso, o Farinhaque chamou os seus pares de diretoria e disse: ‘Vamos construir a Baixada.’ Ele nem sabia como ia fazer, mas fez. E a primeira doação pra essa volta foi a Torcida Os Fanáticos que fez. Eu fui na Câmara e na Assembleia e peguei dinheiro com todos os vereadores e deputados que eu conhecia, os que eu não conhecia eu insisti para os outros pedirem. Demos 8 mil tijolos para ajudar, foi feito um Livro de Ouro das doações e lá está a Torcida Os Fanáticos como responsável pela primeira doação pra reconstrução da Baixada.

A partir disso começaram a aparecer doações de grandes atleticanos. Mesmo assim era difícil, o Atlético não tinha dinheiro, aquilo parecia que não ia sair nunca. Naquela época eu tinha acesso livre na sala da diretoria e me lembro que um dia estava lá e o Farinhaque passou a mão no telefone e ligou pro Ney Braga, dizendo: ‘General, fala com o Antônio Ermírio e manda trazer uns 200 caminhões de cimento, eu tenho que mostrar pra torcida.’”

Prof. Heriberto conta uma história incrível que aconteceu nessa época:

“Teve um fato extraordinário que eu presenciei nessa época. Eu era secretário do Conselho, era o Diretor do Patrimônio Histórico e Cultural do Atlético. E chegou um sujeito humilde, de bicicleta, com um saco de cimento atrás e disse: ‘Essa é a minha contribuição para a construção da Baixada.’

Foi algo fenomenal que até hoje me emociona, aquele sujeito humilde, de bicicleta, uma bicicleta velha, dizer: ‘Essa é a minha contribuição.’

Esse é o espírito do torcedor atleticano, a garra que o torcedor sempre teve em prol da camisa vermelha e preta. Pra defender o Atlético, um abnegado, deve ter tirado dinheiro do pão ou do litro de leite do filho, pra levar um saco de cimento. Isso é fenomenal.”

1990 – O ano do The Wall

Neste ano, André Gonser, um dos integrantes da Fanáticos criou aquele que viria a ser o segundo hino do Atlético, numa “homenagem” aos coxas. Como contou Renato Sozzi:

“Naquela época, uma rádio fez uma paródia do The Wall que era assim: Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu… cantada no ritmo da música do Pink Floyd.

Nós estávamos no Bar do Bira, o Sinal Verde, ali na esquina da Praça e o André começou a tocar aquilo no violão, um já puxou um palavrão, outro puxou outro e assim foi saindo a música.

A estreia foi num jogo rodada dupla no Pinheirão, Coritiba e União e Atlético e Paranavaí. O jogo deles foi a preliminar e o nosso era o principal. Foi uma música que já caiu no gosto de torcida de uma maneira fenomenal.”

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Mais sobre a história da criação da paródia do The Wall pode ser conferido na entrevista da furacao.com com André Gonser. Para ler, clique aqui.